E os russos invadiram os palcos do Rio

Trio com Berezovsky, Makhthin e Kniazev sacudiu programação da Folle Journée

João Luiz Sampaio, Rio, O Estadao de S.Paulo

09 de junho de 2008 | 00h00

O pianista Boris Berezovsky e o violinista Dmitri Makthin subiram ao palco da Sala Cecília Meireles já no começo da noite. No programa, duas sonatas de Beethoven, a nº 5, Primavera, e a nº 7. A sonoridade das cordas, a riqueza de coloridos do piano... depois de dois dias dominados por artistas franceses, a programação de sexta-feira da Folle Journée terminou com uma sensação diferente, aliviando o cansaço da maratona de concertos com a promessa do que ainda estava por vir: os russos, enfim, haviam chegado.O sentimento se manteve no sábado logo cedo, com recital do pianista Andrei Korobeinikov, com as sonatas nº 4, nº 20 e nº 28 - três momentos diferentes da obra do compositor e um mesmo intérprete, com técnica excepcional, impressionante mesmo, procurando um sentido de unidade que ofereça uma visão do significado que as sonatas têm para a história do piano.Esse, aliás, é um dos trunfos do conceito por trás da Folle Journée. De quarta a ontem, foram realizados 48 concertos dedicados exclusivamente a Beethoven. De um lado, há o ritmo frenético, a correria de um teatro a outro, de um concerto a outro, o que perverte, e isso é bom, a noção do concerto tradicional, propondo uma relação diferente com a música e os intérpretes. Mas não é só isso. Confiar a obra de um mesmo compositor a diferentes intérpretes propicia uma riqueza de olhares e abordagens e, na escolha de cada músico perante o mesmo compositor, você enxerga também aquilo que o guia como artista.Há intérpretes que têm tamanha familiaridade com um repertório que são capazes de transformá-lo de acordo com sua própria sensibilidade, sem desprezar as intenções originais do compositor. É o caso do experiente pianista franco-libanês Abdel Raman El Bacha, um dos responsáveis pela integral das sonatas de Beethoven. Suas escolhas de andamento são profundamente pessoais, sempre no limite dos tempos propostos, o que revela um pensamento musical dos mais interessantes. Jean-Frédéric Neuburger, pianista francês de 24 anos, passou com facilidade pelas dificuldades técnicas daquela que talvez seja a mais complicada das sonatas de Beethoven, com atenção especial à conexão de temas entre os quatro movimentos da peça. Sua conterrânea Claire Désért também foi destaque, com uma Sonata Les Adieux muito sensível e bem construída.Deixando um pouco de lado as sonatas , a integral feita pelo Quarteto Ysaye dos quartetos de cordas de Beethoven obteve um resultado muito consistente. Já o Concerto para Violino interpretado no Teatro Municipal pela alemã Leda Neudauer e a Orquestra Bachiana Brasileira, com regência de Ricardo Rocha, foi uma decepção - tecnicamente perfeita, a execução é monótona, com tempos arrastados que não revelam a complexidade e a excitação de uma peça que não apenas é fundamental na literatura para violino e orquestra como também para a subversão das formas que caracteriza a evolução de Beethoven.Mas, de volta aos russos. Com eles, não há monotonia. Depois do concerto para violino, subiram ao palco do Municipal Boris Berezovsky, Dmitri Makthin e o violoncelista Alexander Kniazev. Eles interpretaram o Trio Arquiduque, o último e mais genial dos escritos pelo compositor. Ensaiaram apenas uma vez, vinte minutos antes da apresentação, enquanto, pela tela do saguão do teatro, podia-se ver os funcionários rearranjando o palco após o concerto da orquestra. Talvez seja a combinação do talento individual com a comunhão de uma mesma escola, mas o que eles fazem com o movimento lento do trio, Andante Cantabile, é de arrepiar, passando pelas quatro variações e retornando à melodia original com uma serenidade eletrizante, apesar do celular que soou insistente no final da execução. Aliás, deve haver certa ironia em um telefone com toque extraído na Nona Sinfonia de Beethoven interromper um dos momentos mais mágicos de um festival a ele dedicado, não?Ainda no sábado, Antonio Meneses e Menahem Pressler fizeram o primeiro dos dois concertos com as sonatas para violoncelo do compositor. A expectativa era grande e, talvez por isso, os pequenos escorregões dos músicos tenham ganho significado maior que o merecido. Na integração entre eles, na maneira como respiram e sentem juntos essa música, há lições de sobra a respeito do que faz a música de câmara algo tão delicado e especial.

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