E o teu olhar era de doloroso adeus

O fim de um relacionamento é o tema de A Música Segunda, de Marguerite Duras, dirigida por José Possi Neto, no Rio

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

Um homem e uma mulher se apaixonam e se casam. Moram num hotel por três meses até se mudarem para a casa nova. Com o convívio, a relação desmorona. Vem a separação. Três anos depois, o reencontro, no hall do mesmo hotel, logo depois da assinatura do divórcio. A conversa que se segue é intensa, reveladora, dolorosa - mas necessária. Ainda existem o amor e o desejo, só que os dois têm consciência da impossibilidade da relação. Assim se desenrola A Música Segunda, peça da escritora francesa de origem asiática Marguerite Duras que está em cartaz no teatro da Maison de France, no Rio, com direção de José Possi Neto. Leonardo Medeiros é Michel Nollet e Helena Ranaldi, Anne-Marie Roche, um casal que se une por se amar demais, e acaba se separando pelo mesmo motivo. "Eles não conseguem esquecer as cicatrizes porque continuam se amando. É uma história universal, arquetípica, de todo casal que se separa. Fiquei fascinado pelo texto, porque a autora não dá um caminho. Não existe uma mensagem", avalia Medeiros. "Eu li o texto e não tive dúvida alguma de que queria fazer a peça. Sempre tive sorte porque meus personagens têm relações muito intensas. As relações humanas me interessam muito, acho importante falar disso", diz Helena. Tanto para ela quanto para ele é o primeiro contato com a obra de Marguerite Duras para teatro. O público viu os atores juntos recentemente, na novela da TV Globo A Favorita. Medeiros era o "prefeito corno" e Helena, a esposa adúltera. Embora entre os cônjuges franceses também haja a questão da traição, a relação aqui é bem diferente. Em certo momento, surge a frase: "Vamos amar menos as outras pessoas." Para Medeiros, trata-se da vontade de viver amores menos passionais. "Esse casal se casou muito jovem. Para mim, é como se essa frase fosse um chamado para um amor mais sereno." Possi ressalta a modernidade do texto. "É muito provocante para mim como encenador. É quase uma colagem de cenas do cotidiano que vão construindo um universo de sensações. Há muitos anos não pegava um texto assim." Para mostrar ao espectador as emoções escondidas do homem e da mulher, o amor e a paixão não-realizados, o diretor, entusiasta do "teatro-dança", leva ao palco dois bailarinos, que, posicionados atrás de uma tela transparente, por vezes são como alter egos das personagens; noutras, são imagens refletidas no espelho, ou, ainda, sombras.Nascida em 1914, Marguerite, escritora, roteirista e diretora de cinema, escreveu A Música em 1965 e adicionou uma segunda parte 20 anos depois - daí o título A Música Segunda. A produtora Lulu Librandi assistiu à montagem com Fanny Ardant no papel de Anne-Marie em 1996, ano da morte da autora. Ficou encantada com a força do texto, mas só conseguiu adquirir seus direitos quase dez anos depois. A peça vai estar de quinta a domingo, até 27 de setembro, no Teatro Maison de France PSA Peugeot Citroën (Av. Presidente Carlos de Campos, 58, Centro, Rio).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.