E o melhor ator é... o anúncio que promete agitar a festa

Surpresas sempre acontecem, mas a noite promete ser de vitórias anunciadas

, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

Todo ano o Oscar tem seu campeão de indicações que, na maioria das vezes, termina sendo o grande perdedor da festa. Não é preciso ir muito longe. Entre os filmes com mais de dez indicações, Gangues de Nova York, de Martin Scorsese, não ganhou um, nem como consolação, em 2002, e o diretor teve de esperar por Os Infiltrados para, enfim, receber sua estatueta de melhor diretor da Academia. Este ano, o azarado da vez, não o azarão, arrisca-se a ser O Curioso Caso de Benjamin Button. As 13 indicações para o filme de David Fincher o avalizam como produção e realização de prestígio, mas, para os votantes, Benjamin Button, como Batman - O Cavaleiro das Trevas, é uma fantasia e vocês sabem como é a Academia. Como uma ?cortesã? em busca de respeitabilidade, a Academia de Hollywood prefere premiar filmes mais ?sérios?, como se Benjamin Button e Batman não o fossem.Embora Benjamin Button seja o melhor filme e David Fincher seja 10, 100 vezes melhor diretor do que Danny Boyle, o escocês e Quem Quer Ser Um Milionário? (Slumdog Millionaire) devem levar os Oscars principais nesta noite. Será uma surpresa, se isso não ocorrer, mas é sempre bom lembrar, até como salvaguarda, que o Oscar é uma caixinha de surpresas e muitas vezes até o vencedor mais anunciado pode ser atropelado por um azarão. Outros prêmios nos quais se pode (deve) apostar - o de melhor atriz para Kate Winslet, por O Leitor (e ela merece, embora seja ainda melhor por Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes); o de melhor coadjuvante masculino para Heath Ledger, o Coringa de Batman, e o de coadjuvante feminina para Penélope Cruz, por Vicky, Cristina, Barcelona, de Woody Allen. Se Ledger realmente vencer, será o primeiro prêmio póstumo para um ator desde que Peter Finch venceu por Rede de Intrigas (Network), de Sidney Lumet, em 1976.A vitória de Ledger, morto no começo do ano passado, é tão certa que a especulação - a aposta - é quem receberá a estatueta em seu lugar. A ex-mulher, Michelle Williams, dificilmente subirá ao palco, até por ser ex. Para efeitos legais, a ?dona? do provável Oscar de Heath Ledger é sua filha, mas a garota tem apenas 3 anos e também dificilmente seria convidada a arcar com tamanha responsabilidade, embora, do ponto de vista midiático, essa fosse a solução para entrar nos anais da Academia. Já pensaram? Uma menininha recebendo a stand up ovation que a Academia, com certeza, vai oferecer a Ledger? Seria inesquecível, mas, ao contrário do prêmio, improvável. O mais certo é que o diretor Christopher Nolan suba ao palco para o agradecimento. Penélope Cruz pode bisar o feito de seu compatriota Javier Bardem no ano passado e ser a melhor coadjuvante. Você pode dizer, e será certo, que Woody Allen apenas pediu que ela fosse almodovariana, para expressar a alma espanhola. Certo, mas a Academia é louca pelas coadjuvantes de Allen. Dianne Wiest (duas vezes) e Mira Sorvino já levaram o Oscar de coadjuvante. Por que não a sexy Penélope?Numa noite cheia de vitórias anunciadas - mais do que prováveis -, o grande momento de emoção arrisca-se a ser o prêmio para o melhor ator de 2008. Os cinco indicados são todos excepcionais, mas dois - ou três - merecem uma análise mais detalhada. Brad Pitt é arrasador como Benjamin Button, mas conspiram contra ele - 1) a beleza; 2) o fato de o filme ser uma ?fantasia?; e 3) o de o rosto do ator ter sido digitalmente ?colado? a outros corpos para simular as diferentes idades do personagem. Seria muita gente a reivindicar ?sua? fatia do cobiçado troféu, o que poderia criar um problema legal para a Academia (brincadeirinha...). Vale concentrar-se em Sean Penn e Mickey Rourke, por Milk - A Voz da Igualdade, de Gus Van Sant, e O Lutador, de Darren Aronofsky. As interpretações de ambos celebram duas coisas às quais a Academia é muito sensível. Rourke, a reinvenção, a ressurreição, a segunda chance. Penn, a transformação.O ex de Madonna, atual de Robin Wright Penn, é um machão de carteirinha e notório engajado em causas sociais e políticas. O fato de fazer um pioneiro da luta gay por direitos civis acrescenta ingredientes como coragem e correção política ao glamour - Penn, afinal, já ganhou uma estatueta por Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood, no qual interpretou outro papel delicado, o de um sobrevivente de abuso infantil. Rourke, um astro nos anos 80, foi fundo nas drogas, adquiriu a fama de intratável e chegou ao fim da linha. Há quatro anos, foi resgatado por Sin City, de Robert Rodriguez e Frank Miller. A ?ressurreição?, na verdade, começou lá e, hoje à noite, caso ele vença, teremos uma confirmação da nova fase do ator. Rourke tanto pode parecer sublime como dar a impressão de repetir-se, sendo ele mesmo. Quem leva? É a grande incógnita da noite, mas, como a aposta é livre, vamos ficar com Sean Penn, pelo simples fato de que ele é, no limite, o melhor.Batman e Benjamin Button, até como consolação, devem dividir os prêmios técnicos - isso se o filme de David Fincher realmente ganhar alguma coisa. Sobra mais um forte candidato, embora seja arriscado atribuir-lhe a etiqueta de ?imbatível?. Uma eventual vitória do israelense Ari Folman na categoria de melhor filme estrangeiro, com Valsa com Bashir, seria muito bem-vinda, além de merecida. A questão é - por que a Academia não indicou também o filme para melhor documentário? A resposta é fácil. Porque esta é outra vitória anunciada - o melhor documentário será Man on Wire, de James Marsh e Simon Chinn.

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