E o artista despe a Salomé de Tsai Ming-liang

Visage, filmado no Louvre, marca o retorno do estilista ao cinema, tirando os véus de Laetitia Casta

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

22 de agosto de 2009 | 00h00

Cannes este ano celebrou o reencontro de Christian Lacroix com o cinema. Les retrouvailles, como dizem os franceses. Seus últimos figurinos para o cinema haviam sido criados para Les Enfants du Siècle, de Diane Kurys, com Juliette Binoche e Benoit Magimel, há dez anos. Ei-lo que volta com Visage, de Tsai Ming-liang. Veja galeria de fotos no siteÉ no mínimo curioso que o diretor artístico Thierry Frémaux, responsável pela seleção do festival, tenha reservado para o final os dois filmes que se anunciavam como mais chiques neste ano. Visage (Rosto) foi o último filme da competição e o encerramento foi com Coco Chanel & Igor Stravinski, de Ian Kounen, sobre a tempestuosa ligação entre a estilista e o compositor. Ambos foram revolucionários. A moda e a música nunca mais foram as mesmas após o tailleur de mademoiselle Chanel e a Sagração da Primavera.Críticos de todo o mundo reclamaram - Visage não seria propriamente um filme, mas uma sucessão de quadros que funcionam mais ou menos como passarela para as criações de Lacroix. Além de não ser a mais adequada, a definição tropeça numa evidência que qualquer cinéfilo reconhece. Ninguém que tenha o mínimo conhecimento da obra do diretor nascido na Malásia espera dele cinema narrativo. A praia de Tsai é outra.Em seu 12º filme com o ator Lee Kang-sheng, ele teve patrocínio do Museu do Louvre, que lhe permitiu usar suas instalações do jeito que quisesse (além de fornecer a verba para a realização). O filme é sobre um diretor que encena no Louvre uma produção livremente adaptada de Salomé, de Oscar Wilde. Há este velho ator, cuja saúde é frágil e a psique mais tênue ainda. Jean-Pierre Léaud, que fazia Antoine Doinel na série de François Truffaut, é perfeito no papel do velho louquinho, secundado por várias estrelas de Truffaut (Jeanne Moreau, Fanny Ardant, Nathalie Baye). Laetitia Casta é quem dança os sete véus. Nada faz muito sentido, ou então o festival estava terminando e os críticos não tiveram muita paciência para as elucubrações de Tsai. Mas você nunca viu o Louvre desse jeito, de dentro. As criações de Lacroix são delirantes, extravagantes. O filme é um jogo de espelhos no qual a plateia não faz outra coisa senão esperar que caia o último véu de Salomé.

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