''É muito difícil uma montagem me frustrar''

A atriz Magali Biff acredita nos paradoxos: sabe que existe um elemento de eternidade nos momentos passageiros. Ela considera a arte teatral uma atividade efêmera, mas capaz de colocar dentro dos homens imagens que não se apagam. Assim, vê o teatro. Na entrevista a seguir, Magali diz que, no momento derradeiro, será assaltada por imagens de espetáculos teatrais vistos ao longo da carreira teatral. São essas as imagens que ensinaram os caminhos a percorrer. Certas lições nunca deixam de acompanhar alguns indivíduos.Formada pela Escola de Arte Dramática da USP em 1984, Magali Biff recebeu o Prêmio Shell de melhor atriz por sua atuação em K, adaptação do texto Kaspar, de Peter Handke, levada ao palco por Rubens Rusche. Foi três vezes indicada para esse mesmo prêmio por Boneca do Barco, texto e direção de Délia Maunas, Esperando Godot, de Samuel Beckett, sob a direção de Gabriel Villela, e Educação Sentimental do Vampiro, de Dalton Trevisan, na direção de Felipe Hirsch. Recebeu o APCA por O Retrato de Janete, de Marcelo Romagnoli, na direção de Dedé Pacheco. Magali atuou com diferentes diretores - Moacyr Góes, Zé Celso Martinez Corrêa, Cacá Rosset, Roberto Lage, Gerald Thomas. Na televisão fez novelas no SBT e na Rede Globo, entre elas Chiquititas e Páginas da Vida. Atualmente está em cartaz no Sesc Pinheiros com a peça Calígula, de Albert Camus, dirigida por Gabriel Villela. Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?Como disse Plinio Marcos no texto O Ator - "Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado..." Amo todos os atores e tenho carinho especial por Fernanda Montenegro, Maria Alice Vergueiro - minha musa (ins)piradora -, Walderez de Barros, Celso Frateschi, Erica Migon, Bete Coelho, Guilherme Weber, Fernanda Torres, Marco Nanini, Leonardo Medeiros, Juliana Jardim, Maria Tendlau, Maria do Carmo Soares, os meninos do Salmo 91 (Pascoal, Ando, Rodrigo, Pedro Henrique, Rodolfo), Jorge Emil, Claudio Fontana, Cassio Scapin, Renata Calmon e, a partir de agora, acompanharei Thiago Lacerda, por sua inteligência, seu talento e sua seriedade no trabalho.Qual o diretor de teatro cujo trabalho admira em especial?Dois diretores são muito especiais para mim: Gabriel Villela e Felipe Hirsch: eles são artistas criadores geniais, no momento da criação acontece entre nós uma sintonia perfeita, entendo o que eles querem e eles sabem tirar o que há de melhor em mim.Dê um exemplo de criador teatral (intérprete, diretor ou dramaturgo) muito bom, mas injustiçado.Os nossos dramaturgos, particularmente os mais recentes, são injustiçados - não precisaria agora citar nenhum em particular para provar isso.Cite uma montagem teatral que tenha frustrado suas melhores expectativas.É muito difícil uma montagem frustrar as minhas expectativas. Como observou uma vez Maria Lúcia Pereira em sua crítica, realmente eu sou "bicho de teatro", então sei muito bem onde entro e o que verei; às vezes não gosto, mas já previa esse desgosto.E uma criação teatral surpreendente: boa e pela qual você não dava nada.Não exatamente "que não dava nada", mas o que me surpreendeu muito foi a pesquisa e o bom resultado alcançado pelo grupo XIX de Teatro, no espetáculo Hysteria, dirigido por Luis Fernando Marques.A cena brasileira tem algumas montagens teatrais antológicas. Cite algumas que tenham sido marcantes em sua vida.São várias. À medida que o tempo passa, elas vão ficando cada vez melhores, como um bom vinho: Quem Tem medo de Virgínia Wolf?, com Raul Cortez e Tônia Carrero; Artaud, com Rubens Correa; O Lírio do Inferno, com Maria Alice Vergueiro; Anjo Duro, com Berta Zemel; A Paixão Segundo G.H., com Mariana Lima; Madrugada, sob direção de Dedé Pacheco; Romeu e Julieta, do grupo Galpão, direção de Gabriel Villela; A Vida É Feita de Som e Fúria, com a Sutil Companhia de Teatro, direção Felipe Hirsch; Cacilda, do Zé Celso Martinez Corrêa; Electra com Creta, texto e direção de Gerald Thomas; Katastrophé, direção Rubens Rusche; Velhos Marinheiros, com direção de Ulysses Cruz; Os Sete Gatinhos e Vereda da Salvação, ambas dirigidas por Antunes Filho; Les Atrides, na direção de Ariane Mnouchkine; O Homem Que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, na direção de Peter Brook; Mazurca Fogo, com a direção de Pina Bausch; Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, na direção de Eduardo Tolentino. Evoé Baco!Que montagem lhe fez mal, de tão perturbadora?Apocalipse 1.11, do Antônio Araújo, com o Teatro da Vertigem. Quando o portão se abriu na cena final eu desabei, literalmente, num choro convulsivo que até hoje não sei explicar; eles tocaram algo profundo em mim.E que espetáculo teatral mais a fez pensar?Todos que vi e foram citados nessa entrevista, e particularmente os espetáculos nos quais atuo, sempre me conduzem a uma reflexão.Comédia é um gênero menor? Se a resposta for negativa cite uma peça maior do gênero. Se for positiva, diga por quê.De maneira alguma, todos os gêneros são difíceis de realizar, e exigem pesquisa, inclusive uma boa comédia como Ubu Rei, de Alfred Jarry, encenada por Cacá Rosset.Cite uma peça difícil, mas boa.Calígula, de Albert Camus.Uma montagem que imagina ter sido muito boa e você não viu.Fausto Zero, do Gabriel Villela, e Estou Te Escrevendo de um País Distante, do Felipe Hirsch.Um espetáculo difícil, mas inesquecível.O Concílio do Amor, direção de Gabriel Villela.Que peça (s) escrita (s) nos últimos dez anos mereceria, para você, um lugar na história do teatro brasileiro.O Santo Parto, do Lauro César Muniz. A outra seria Êxtase, de Walcyr Carrasco. Fiquei com vontade de ler todas as peças escritas por eles.De qual texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?Todos os do Plínio Marcos e do Nelson Rodrigues.Que peças (ou autores) de peças (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?Não me ocorre nenhum. Agora um autor não exatamente ausente dos cânones, mas que deveria ser mais encenado - Edward Albee.Que montagem (ou ator, autor, diretor) festejada pela crítica você detestou?Respeito muito a crítica, mas escolho (ou não escolho) as peças que vejo principalmente pelo conjunto da equipe envolvida, principalmente pelo texto, pela direção e pelos atores.E o que mais a incomoda no mau teatro?Quando não consigo entender a que veio determinado espetáculo. Feito por quê? Para quê? Para quem?Que virtude mais preza no bom teatro?O teatro é uma obra efêmera. Ela vive naqueles minutos da representação, mas paradoxalmente os bons espetáculos permanecem em nós para sempre. Tenho certeza que naquele derradeiro minuto da minha vida, em que uma avalanche de imagens me revisitará, dentre elas estarão algumas cenas inesquecíveis de espetáculos teatrais.

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