É Hollywood na veia, é cinema puro

No meio da parafernália tecnológica, um enigma permanente eletriza o público

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

No Festival de Berlim, em fevereiro, uma Madonna tensa, e trêmula - visivelmente nervosa -, apresentou-se para a imprensa mundial, após a exibição do longa que assinala sua estréia na direção, Filth and Wisdom. Madonna citou Jean-Luc Godard e Jean Vigo, Masculino, Feminino e L''Atalante, seus filmes favoritos. Criticou o consumismo e assumiu seus erros de diretora principiante. Filth and Wisdom foi uma bela surpresa em Berlim - provocativo e iconoclasta, mas o que mais se poderia esperar de Madonna? Ela fez uma apaixonada defesa de seu filme. Não precisava - Filth and Wisdom defende-se sozinho. Madonna explicou por que não quer mais ser atriz - seu público nem liga para a personagem que ela supostamente deve estar interpretando. Isso prejudicou não poucos de seus filmes, não importa o diretor, Madonna desculpou-se.Uma outra Madonna irrompeu ontem à noite no megapalco montado no Morumbi, para a etapa paulista, a final, de sua turnê mundial Sticky and Sweet. Não aquela trêmula e talvez insegura Madonna de Berlim, que dava a cara para bater num dos maiores festivais do mundo, mas a performer poderosa que sabe eletrizar uma audiência. Buscando uma analogia cinematográfica, o filme da Madonna diretora é autoral como os dos cineastas que ela admira. O show é outra coisa. Hollywood na veia. Começa como um prolongamento da viagem lisérgica de 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. O cubo montado no centro do palco vira uma vertiginosa fonte de emissão de luzes e imagens - todas as luzes e todas as imagens. O cubo desintegra-se. Forma telões e a partir daí não é mais Kubrick - é Steven Spielberg. Um show de tecnologia e efeitos especiais, mas há um sentido em tudo aquilo.O telão - ou as múltiplas telas - nunca oferecem closes de Madonna, nem quando ela ocupa sozinha o centro do quadro. Na maior parte do tempo, Madonna é envolvida e até dominada por seus companheiros de palco. É como se, com eles, ela se multiplicasse em cena - e o efeito é calculado. Quando o bailarino gruda atrás dela, na passarela, numa simulação erótica, e no minuto seguinte ele salta para o meio do público, o efeito é apoteótico - como se a própria Madonna estivesse dançando na multidão. Em outro número, em especial, os bailarinos a tratam como se fosse marionete e a idéia da repetição mecanizada de gestos tem algo das coreografias geométricas de Busby Berkeley - mas um Berkeley filtrado pelo olhar de Ken Russell, como em O Namoradinho. Ou seja, tudo vira sexo com Madonna no palco, culminando no escandaloso beijo na boca que ela dá numa de suas numerosas clones, vestida de noiva (e cujo véu ela despe).Sucesso há 25 anos, Madonna tem sido, ao longo deste tempo, única e múltipla. Um enigma permanente - uma artista que se reinventa a cada disco, a cada turnê. Quando o público pensa que ela já esgotou seu arsenal de novidades, Madonna surpreende com nova invenção. Uma peruca, um par de óculos são mais do que suficientes para que mude em cena. O show é cinema puro - um carro desfila na passarela, que vira um ringue de boxe, que vira um aquário e sabe-se mais o quê. O que isso tem a ver com música, com o ato de cantar? A Madonna cantora de êxitos dançantes - seu público não pára de dançar, e quando pára, por momentos, é para beijar-se na boca, independentemente de o par ser hétero ou homo - é a cereja no bolo deste mega-show que celebra as infinitas possibilidades que a tecnologia oferece hoje aos artistas. Mas não foi sempre assim? O visual elaborado e requintado de Sticky and Sweet mistura tudo, quadrinhos com Man Ray, as cores de Kandinsky com a inocência calculada dos desenhos de Paul Klee.Tanto quanto uma crítica musical ou "cinematográfica", poderia ser desvendado como um show de artes puramente visuais.Sticky and Sweet. Uma paulada doce. No centro dessa parafernália, o enigma transfigurado. Madonna, aos 50 anos, marilynianamente loira - platinada -, continua senhora do palco. Poucas artistas dominam tanto seu instrumento, o corpo como o espaço que ele ocupa no palco. A voz é o de menos. Madonna é uma grande entertainer, e não uma grande cantora. O efeito sobre a multidão é fulminante. Quando ela grita que ama o Brasil, o Morumbi vem abaixo como em final de campeonato. Só há uma maneira de resistir ao efeito Madonna - não assista a seus shows. Mas é vendo, e pagando caro pelo Sticky and Sweet Tour, que você descobre o que estaria perdendo.

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