E diga agora o que é que eu digo

Comprei Leite Derramado, o novo livro de Chico Buarque, no dia em que ele chegou às livrarias. Eu tinha pressa de seguir em frente. Se quiser, posso contar a minha vida através da obra do Chico. "Eu e a torcida do Fluminense", minha compostura se apressa em corrigir.- Isso foi em 81.- Claro que não, foi no ano do Almanaque, logo, foi em 82.Depois que virei escritora (e ao escrever esta frase me sinto tão ridícula quanto alguém que escrevesse "depois que virei um esquilo", como fosse apropriado se afirmar com tal certeza ter virado um esquilo), de vez em quando me perguntam minhas influências.- Machado de Assis?- Sim.- Guimarães Rosa?- Sim. E Tolstoi. E Borges. E Paulo Mendes Campos. E, principalmente, para ser bem sincera, na memória dos pensamentos diários na cabeça, do rádio tocando no trajeto casa/escola e das reuniões de família, a Música Popular Brasileira.Eu sou desse tempo. A gente ouvia MPB no carro, na vitrola, no gravador, na televisão, no walkman, e, se houvesse iPods, encheríamos gigas e mais gigas de versos. A gente cantava MPB nas rodas de violão. A gente tocava violão. A gente se apaixonava, no meio de uma canção, por olhares que cruzavam as rodas. E por mais que a distância venha, desde lá, enfeitando esse tempo, sinto dizer que ele também era duro, e chato, e triste, e violento, e, como sempre, imprevisível, e, às vezes, quente demais, isso sem falar nas moscas, mas era mesmo muito bom esse tempo.Sim, eu sou saudosista. Mas, não, eu não sou completamente louca. Não serei eu a julgar os méritos de cada tempo, cada qual com suas qualidades e defeitos.E é então que, como acontece com o narrador de Leite Derramado, uma ideia puxa a outra e me vem à ideia o narrador de Leite Derramado. Se é que ele viveu a julgar os méritos de cada tempo, ali, em sua condição, ele exibe a inutilidade dos julgamentos pessoais, ainda mais quando o tema é assunto sagrado feito o tempo.Assim como de um Natal para o outro a gente repara como fulaninho está mais crescido, de um disco do Chico para o outro a gente reparava como tudo tinha mudado, inclusive a gente. Talvez nem Pedro Pedreiro esperasse por essa, mas desde quando Ela e Sua Janela resolveu declarar emoções que ainda estavam à espera de palavras que as acomodassem, viemos acompanhando uma história do Brasil fora da aula de História. Cantamos Sabiá, Apesar de Você, O Que Será e Bye, Bye, Brasil com certeza de hino. Conhecemos novas mulheres. Umas moças diferentes. Algumas desatinaram. Mas o que é que tem? Demos cabriolas de tempos, espaços e sonhos, enquanto tudo ia se transformando, como convém à vida real, passo a passo. Muitas vezes os mais politizados levantaram bandeiras, os mais românticos viajaram léguas, os mais singelos apenas sorriram, e os linguistas se deliciaram com a mesma canção, exatamente a mesma, que conseguia conter observação, paixão, poema, aspereza, ternura, alegria ou tristeza.E numa outra pirueta das ideias, tristeza traz à cabeça um velho "sem conselhos, de joelhos, de partida". E enquanto este desconfia que "foi tudo escrito em vão", um outro, o velho narrador de Leite Derramado, por garantia, quer preservar palavra por palavra seus brasões e seus desenganos.Não adianta chorar. Novos tempos, novos velhos, novas lembranças, novos esquecimentos. E a história segue. Para mim, ela acaba de dar um pulo e lá vou eu atrás dela. Terminei de ler Leite Derramado.E o que é que eu digo agora? Leia.

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