E Deus criou BB, a primeira mulher

Símbolo da liberdade sexual, atriz é a grande atração de caixa com três filmes

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2008 | 00h00

Reza a lenda que Deus criou a mulher há pouco mais de 50 anos quando Roger Vadim transformou Brigitte Bardot em uma das mais fulgurantes estrelas do cinema, um vulcão de sensualidade capaz de abalar a segurança do mais experiente conquistador. Foi em 1956 que o diretor lançou E Deus Criou a Mulher, ponto de partida para um mito que deixou milhões de pessoas apaixonadas pelo mundo e tornou famosa a sigla BB, identificando apenas uma pessoa no universo. Embora fosse o filme de número 18 em sua carreira, Bardot delimitou ali seu marco zero, iniciando uma nova fase em que, para os fãs, pouco importava o roteiro, mas sim a presença de seu sex symbol preferido na tela grande.É o que explica o interesse pela caixa Coleção Brigitte Bardot, que a Universal acaba de lançar em DVD (R$ 50). Ali reunidos estão Garota Levada, título sugestivo do filme dirigido por Michel Boisrond, em 1956; Quer Dançar Comigo?, de 1959, novamente com Boisrond no comando; e O Repouso do Guerreiro, em que BB reencontra seu Pigmalião, Roger Vadim, em 1962. Exemplos pouco representativos, se analisados sob o rigor da crítica cinematográfica, mas que cumprem à risca a missão de apenas servir como meio de exibição de toda sua sensualidade.Mulher com expressões de menina, que se desnudava facilmente sob uma aparente infantilidade, vamp ingenuamente malévola, Brigitte Bardot sempre foi perseguida pela câmera, independente do papel vivido. Nascida em 1934, em Paris, BB exibia uma beleza tão estonteante que, aos 15 anos, já desfilava como modelo, estampando capas de revistas badaladas. Logo o cinema tornou-se um caminho natural. Estreou em 1952, no longa Le Trou Normand, de Jean Boyer. Dois filmes mais e ela já estava casada com Roger Vadim - ele, na verdade, já estava interessado fazia tempo naquele mulherão mas , como tinha apenas 17 anos, BB foi obrigada pelos pais a esperar pela maioridade para então sair de casa.A união durou apenas cinco anos, tempo suficiente para a atriz capitalizar a fama e conquistar o mundo, cuja capital já eram os Estados Unidos. Em 1953, BB realizou seu primeiro filme americano, Mais Forte Que a Morte, ao lado de Kirk Douglas, sob a batuta de Anatole Litvak.Foram 16 longas (dois rodados na Itália) até chegar 1956, com a estréia de E Deus Criou a Mulher - um filme pouco comum na cinzenta cinematografia francesa, pois abusava dos planos abertos e iluminados, além de privilegiar os gestos, ao contrário das palavras. E, principalmente, por conter generosas cenas de nudez.Uma beleza incomum, que, apesar disso, não escondia uma mulher sensível e inteligente, inspirou fêmeas fatais em todo o mundo, a começar no Brasil, onde Norma Bengell fez até beicinho a la BB na comédia O Homem do Sputnik, de Carlos Manga. A atriz, aliás, veio ao País em busca de refúgio nos anos 1960, trocando temporariamente as praias de Saint-Tropez pelas de Búzios, que logo se tornaram referência internacional.Ela chegou no Rio em 1964, a bordo de um avião Caravelle, o supra-sumo da aviação da época. E sua saída do aparelho foi digna de uma superstar - meia hora depois do pouso, com o avião cercado por jornalistas ávidos pela sua beleza, um fusca abriu caminho entre a pequena multidão, estacionando próximo da escada. Foi quando BB, ao lado do playboy franco-marroquino Bob Zaguri na cobiçada condição de namorado, desembarcou e rumou para o paraíso tropical, onde dourou ao sol, cantou e amou à vontade.Bardot, na verdade, já inspirava a liberdade sexual e a vontade de viver que motivariam os jovens daquela época, especialmente alguns estudantes que, em maio de 1968, chacoalhariam o mundo em ondas que reverberam ainda hoje.A presença de BB nas telas, no entanto, estava com os dias contados. Em 1965, ela interpretou a si mesma em Dear Brigitte, com James Stewart - na verdade, BB apareceu em apenas uma cena. E, quando estava próxima de completar 40 anos, ela filmou Colinot, em 1973, e anunciou sua aposentadoria cinematográfica. Ela não queria mais se expor, abrindo uma única exceção para a revista Playboy, onde exibiu o púbis pela primeira vez, clicada pelo então namorado Laurent Vergez.Em 1982, com um semblante já não mais fulgurante, abominou o cinema, que definiu como uma arte ''superficial, dura e injusta''. Iniciou uma implacável campanha mundial em favor dos animais, ao mesmo tempo em que flertava com a extrema direita francesa e seu ataque contra os imigrantes. Atitudes pouco louváveis, mas que não arranharam o mito BB, a mulher que melhor representou o prazer da liberdade.

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