E a política tira Veneza do sossego

Filmes engajados, de Michael Moore e Oliver Stone, põem fogo na mostra

Luiz Zanin Oricchio, VENEZA, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2009 | 00h00

O Festival de Veneza seguia calmo até demais, e então chegaram dois "desordeiros" (no bom sentido) e puseram fogo no circo. Por coincidência (ou talvez não) ambos são norte-americanos: Michael Moore, que coloca em competição seu Capitalism: A Love Story, e Oliver Stone, que apresenta fora de concurso South of the Border. Ambos são filmes freneticamente políticos. Engajados. Panfletários até. Detonam a política conservadora e intervencionista dos EUA e colocam-se claramente à esquerda. Ambos foram muito aplaudidos pelo público - o que, na terra de Silvio Berlusconi, deve significar alguma coisa.

Aliás, a certo ponto de sua entrevista, Moore disse que, em razão da orientação política atual da Itália, havia convidado um importante personagem para participar da mesa. E anunciou: "Come on, mr. Berlusconi! Mr. Berlusconi, atrapalhado como anda, não atendeu ao convite de Moore. Mas, se este foi um golpe de cena típico do diretor, no resto da entrevista - e no próprio documentário - ele pareceu bem consistente.

Se em obras anteriores Moore se restringia a críticas pontuais como ao porte de armas (Tiros em Columbine), os efeitos da paranoia após os atentados terroristas (Fahrenheit 11 de setembro), a saúde privatizada (Sicko), agora vai ao próprio cerne do sistema capitalista. No filme, ataca dogmas como o direito ilimitado de propriedade, a livre concorrência e a autorregulação dos mercados. Põe em dúvida o fato de os EUA serem considerados a maior democracia do mundo - um clichê e, como tal vazio, segundo sua interpretação. "É difícil falar em democracia quando é a economia que manda na sociedade." E vai além: "Votar não basta. A democracia se deve praticar em todos os momentos e não apenas quando se comparece à urna."

Moore acha que filmes como o seu dão voz às pessoas excluídas que nunca são consultadas na tomada de decisões. Busca ouvir os depoimentos das pessoas simples, como os flagelados do furacão Katrina ou quem perdeu a residência no furor da crise financeira de 2008. Mas ouve, ou tenta ouvir, também os peixes graúdos, diretores da Lehmanns?s Brothers, da seguradora AIG, da Meryl Lynch, da GM. Gente que, em geral, enriqueceu muito especulando com o dinheiro alheio - antes que as próprias empresas fossem para o vinagre. "Perguntam-se por que vou atrás dessas pessoas. Pois bem, o público em geral não tem essa chance e sei que gostam quando questiono os poderosos." Ele faz mais. Performático, tenta entrar no Bank of America com um carro forte para recuperar o dinheiro, e cerca Wall Street com aquela fita amarela que isola o "local do crime" nas ações policiais.

Embora termine ao som de uma versão estilizada da Internacional, Capitalismo - Uma História de Amor não parece uma apologia ingênua de ideias marxistas. Pelo contrário, a última figura que invoca é a de um estadista como Franklyn Delano Roosevelt que, antes de morrer, em 1945, havia escrito uma carta de direitos dos cidadãos que não chegou a ver implementada. De acordo com Moore, as ideias de Roosevelt tiveram mais acolhida na Europa reconstruída do que em seu país. Ele acredita que esse ideário deve ser reabilitado. E conta com o novo governo de Barack Obama para fazê-lo. "Sou um otimista incurável. Quem imaginaria anos atrás que um afro-americano estaria agora na cadeira presidencial?"

Obama é também o ponto de chegada de South of the Border, incursão de Oliver Stone pelos países latino-americanos governados pela esquerda, em especial a Venezuela de Hugo Chávez. Mas Stone fala também com Cristina Kirchner (Argentina), Fernando Lugo (Paraguai), Rafael Correa (Equador), Raul Castro (Cuba) e, claro, Lula no Brasil. Sua conclusão: algo se move no continente, e agora sob o olhar favorável de Obama. O filme foi longamente aplaudido e festejado. Na terra de Silvio Berlusconi.

Polêmicas

A ITÁLIA EM XEQUE: Francesca é um filme romeno de Bobby Paunescu, que provocou reações calorosas entre os jornalistas presentes a Veneza. Ele conta a história de uma jovem romena que sonha mudar para a Itália e enfrenta obstáculos para realizar seu plano. Não seria o primeiro trabalho a destacar a questão da imigração nos tempos globalizados. Mas este dá nome aos bois e se refere em palavras nada elogiosas a alguns políticos italianos de direita, chamados claramente de racistas. Os nominados se ofenderam e conseguiram da justiça a suspensão das sessões do filme em Veneza. O caso está sub judice, como dizem os advogados. Não se sabia até ontem se as outras projeções acontecerão ou se a proibição será mantida.

ANOS REBELDES: Outro filme que já está provocando polêmica é Il Grande Sogno, de Michele Placido, uma nova revisão da herança de 1968. Um cartaz da produção foi pichado na capital por uma facção intitulada Il Popolo di Roma, de extrema-direita. Segundo seu porta-voz, que incita os romanos a boicotarem o filme, o grupo vem se empenhando em desmistificar a aura heroica do ano rebelde de 1968, "responsável por todos os males legados à Itália de hoje". Placido pediu a intervenção do prefeito para que o filme, que será exibido em Veneza na quarta, não sofra constrangimentos em seu país.

3D: Veneza resolveu dar o Leão de Ouro pela carreira a John Lasseter e os diretores da Disney Pixar. Quem entrega o troféu é ninguém menos que o guru dos efeitos especiais, George Lucas, em cerimônia na Sala Grande, no Palácio dos Festivais. O mais antigo evento do gênero no mundo, Veneza tenta escapar ao rótulo de templo e nicho exclusivo do cinema de autor. Se era essa a intenção, o prêmio não teria destinação mais acertada. L.Z.O.

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