Dúvida chega seguida do êxito teatral

Autor da premiada peça, Patrick Shanley adaptou e levou para a tela a questão do garoto negro que teria sido abusado por padre

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

06 de fevereiro de 2009 | 00h00

Vencedor do Oscar de roteiro - por Feitiço da Lua, de Norman Jewison, em 1987 -, John Patrick Shanley estreou na direção três anos mais tarde com uma fantasia na qual a definição ?delirante? rimava perfeitamente com decepcionante. Joe Contra o Vulcão deve ter sido um trauma para o próprio diretor, porque se passaram quase 20 anos antes que ele retornasse à direção, adaptando sua peça Dúvida, premiada com o Pulitzer e numerosos Tonys - o Oscar do teatro - nos EUA. Dúvida foi um grande êxito internacional, representada em diversos países. No Brasil, assinalou a estreia, em 2006, de Bruno Barreto como diretor de teatro. A versão francesa foi dirigida por Roman Polanski. Assista ao trailer de DúvidaNo palco, a ação concentra-se no escritório de irmã Aloysius, com algumas saídas para o jardim. É nesse espaço exíguo, favorecendo montagens minimalistas e opressivas, que o padre Flynn sofre seu calvário, acuado por irmã Aloysius, que suspeita - e tenta arrancar dele a confissão - de que abusou de um dos meninos do coro, ainda por cima, o único garoto negro na escola, em plena fase de integração racial, nos anos 60. O texto, bem entendido, precede o fenômeno Barack Obama, mas não é impossível que Shanley tenha voltado à direção para integrar algum comentário sobre o que se passa atualmente nos EUA. Nos anos 1960, com John Kennedy, havia uma promessa no ar, que Obama agora reencarna e leva mais longe.A dúvida é o próprio tema - será o padre Flynn realmente um abusador? Madre Aloysius investe contra ele munida de certezas, mas todo o processo é muito vago, alimentado pela suscetível e confusa irmã Jones, que fornece à superiora as evidências necessárias para criar um caso. A própria madre é ambivalente - ela acredita na culpabilidade do padre Flynn e, ao mesmo tempo, sente que ele é uma vítima nessa história toda. Meryl Streep foi indicada para o Oscar pelo papel e você vai ver que, em momentos decisivos, mais do que o texto veemente que ela diz com convicção, são os seus olhos que revelam tudo, e eles vão contra as palavras, relativizando e humanizando as (in)certezas da personagem.Ao adaptar seu texto, John Patrick Shanley resolveu retirá-lo do ambiente único (ou quase). Resolveu ?aerá-lo?, como se diz, em busca de um realismo que o cinema favorece, embora muitas vezes de forma superficial. Ele aumentou o número de ambientes - refeitório, corredores da escola e até a rua. Mais importante, ele cria um som que acompanha - e marca - os confrontos entre a madre e o padre. A dúvida permanece até o fim, e não representa pouco o fato de o padre, mesmo sendo eventualmente inocente das acusações que lhe fazem aqui, poder ser culpado de outros deslizes - afinal, ele já foi afastado de outras escolas e paróquias. O fato de ser um professor de basquete sugere uma ligação profunda com o corpo das crianças. O corpo existe e deve ser glorificado no esporte, mas pode ser, quem sabe, uma fonte de tentação.Essa ambiguidade é constantemente referida no diálogo, como na cena da peça de Natal, que também possui uma dimensão ?herética?, a despeito do que existe de piedoso na sua mensagem. Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman são grandes atores, mas a grande cena não é entre os dois e, sim, o encontro da madre com a mãe do garoto, a quem interpela, em busca de apoio para sua cruzada contra o padre. Viola Davis expressa a exasperação dessa mulher consciente da humilhação que representa ver o filho segregado nas escolas em que deveria, até por força da lei, ser integrado, mas ela teme, acima do próprio bom Deus, a fúria do pai do garoto. Sob múltiplos aspectos, querendo fazer ?cinema?, Shanley enfraqueceu o próprio texto, mas existem momentos como esse em que tudo funciona e o espectador percebe, afinal de contas, por que Dúvida mexeu tanto com as pessoas, em todo o mundo. ServiçoDúvida (Doubt, EUA/ 2008, 105 min.) - Drama. Dir. John Patrick Shanley. 12 anos. Cotação: Regular

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