Dulce Soares/IMS/Divulgação
Dulce Soares/IMS/Divulgação

Dulce Soares mostra uma Barra Funda que resiste ao tempo

Fotógrafa abre a exposição 'Vitrines e Fachadas', no Instituto Moreira Salles, reunindo dois ensaios produzidos nos anos 1970

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

30 Julho 2016 | 03h00
Atualizado 29 Julho 2016 | 22h24

Há exatamente 40 anos, a Secretaria de Cultura do Estado criou uma comissão de fotografia, integrada entre outros por Maureen Bisilliat, para apoiar a concretização de projetos fotográficos em São Paulo. Convidada para fotografar o bairro da Barra Funda, onde moraram vários artistas e o escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945), a fotógrafa carioca Dulce Soares, que residida desde 1974 na cidade, aceitou participar de um projeto que buscava documentar ainda dois outros bairros, o Brás e o Bexiga, todos eles cenários dos contos do clássico livro de Antonio de Alcântara Machado, Brás, Bexiga e Barra Funda (1927).

O Brás ficou a cargo de Cristiano Mascaro e Pedro Martinelli. O Bexiga não chegou a ser fotografado para o projeto. Depois de virar livro, publicado em 1982 pela Imprensa Oficial, a Barra Funda da veterana Dulce Soares pode ser vista agora numa exposição, Vitrines e Fachadas. No primeiro ensaio, Vitrines, ela mostra 50 imagens da série Vestidos de Noiva (1978-79). Em Fachadas (1977), Dulce reúne 110 fotos dos prédios antigos da Barra Funda. A mostra, com fotografias do acervo do Instituto Moreira Salles (IMS), tem curadoria da arquiteta Valentina Tong e será aberta neste sábado, 30.

Todas as 160 imagens da mostra são em preto e branco. Nos anos 1970, muitos fotógrafos de arquitetura já trabalhavam com a cor, mas Dulce Soares manteve sua fidelidade ao preto e branco para reforçar a polaridade entre luz e sua ausência num bairro que demorou a ser tragado pela especulação imobiliária. Muitos dos prédios fotografados por Dulce ainda existem e estão em condições razoáveis de conservação. Outros, como as fábricas do grupo Matarazzo, deram lugar a modernos edifícios de escritórios.

Ainda sobrevivem alguns casarões construídos por imigrantes italianos no começo do século passado, entre eles a Chácara do Carvalho, propriedade do conselheiro Antonio Prado, neto do barão de Iguape e ex-prefeito de São Paulo, que encomendou o projeto ao arquiteto italiano Luigi Pucci, autor do desenho original do Monumento do Ipiranga.

Dulce descobria essas construções históricas ao flanar pelo bairro. No início, conta a fotógrafa, a pesquisa se concentrou nos lugares de relevância histórica, mas logo evoluiu para um ensaio sobre tipologias construtivas. A curadora Valentina Tong separou as imagens por grupos temáticos, alternando o registro de interiores com cenas externas desse bairro que entrou em franca decadência com a crise de 1929, vendo seus casarões serem transformados em cortiços e pensões baratas.

“Para mim, esse levantamento arquitetônico equivale a construir uma paisagem, só que em preto e branco, pois reservo a cor para o registro da natureza”, diz a fotógrafa. Nessas fotos coloridas, o antagonismo claro/escuro não se manifesta, como nas imagens da Barra Funda, algumas muito próximas do lirismo neorrealista de Carlo Montuori (1885-1968), fotógrafo do clássico Ladrões de Bicicleta, em que o mundo aparece em sua naturalidade, ou seja, em preto, branco e cinza, revelando a beleza do conceito por trás da câmera. A foto em preto e branco privilegia a estrutura da imagem, sendo mais “arquitetônica”, justifica a fotógrafa.

Já na série Vestidos de Noiva, ela se coloca de forma menos conceitual e mais pessoal, registrando imagens de manequins e modelos expostos nas vitrines das casas especializadas. “Minha mãe era costureira, fazia figurinos para a ópera”, conta Dulce, que frequentava o Teatro Municipal do Rio quando menina. Para fotografar os vestidos, ela teve de recorrer ao ex-diretor e fundador do Masp, Pietro Maria Bardi, que escreveu uma carta de apresentação aos donos das lojas. “Eles achavam estranho ficar fotografando as vitrines, pensavam que eu ia copiar os modelos”, lembra Dulce, rindo. Nos dias de hoje, em que o casamento volta à moda, essas fotos, feitas há 40 anos, não parecem nada anacrônicas

VITRINES E FACHADAS

Instituto Moreira Salles. R. Piauí, 844, tel. 3825-2560. 3ª a 6ª, 13h/19h. Sáb., dom. e feriados, 13h/18h. Abre sábado (30). Até 20/11.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.