Duelo entre paixão e fé em uma velha casa de fazenda

Fronteira, do diretor Rafael Conde, baseado em livro de Cornélio Penna, guarda tom introspectivo e misterioso

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

04 de dezembro de 2008 | 00h00

Antes de Fronteira, em cartaz na cidade, pelo menos na trajetória do diretor Rafael Conde, houve A Menina Morta. Não faça confusão com A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele. A Menina Morta é o último dos quatro romances de Cornélio Penna, autor carioca que morreu em 1958, deixando inacabado seu quinto livro, Alma Branca. Penna pertence à estirpe de Lúcio Cardoso. É um dos grandes autores pouco conhecidos da literatura brasileira.Rafael Conde é mineiro e freqüenta uma livraria de Belo Horizonte. "Um dia, a vendedora me apresentou um livro e disse que eu ia gostar." Era A Menina Morta. Ele ficou seduzido pelo mistério da escrita de Penna. "É uma literatura de clima, de dramaturgia imprecisa. Nada é certo, tudo é misterioso. Seduziu-o este aspecto ?David Lynch? de Cornélio Penna, mas ele faz a aproximação com prudência, porque sabe que o escritor brasileiro é muito mais complexo e até indecifrável que o diretor americano. Agora é uma provocação do repórter - Lynch, afinal de contas, corre o risco de se banalizar virando gênero de si mesmo e concedendo o que o público espera de um filme com sua assinatura (exceto em História Real).Apesar da impressão que A Menina Morta lhe provocou, Conde optou por adaptar outro livro do escritor, o primeiro, Fronteira, de 1935. Mas ele admite que Fronteira, em sua adaptação, nasceu contaminado pela Menina Morta. O livro passa-se na região mineira de Itabira, por volta de 1900. "Há todo um universo que me atrai - religiosidade, decadência, as ruínas da velha escravatura", resume o diretor. Rafael encontrou essa velha casa de fazenda, um cenário tão fantástico que o próprio Glauber Rocha teria manifestado o desejo de ali filmar. Os personagens são sucintos - a jovem Maria, cuja fama de santidade ultrapassa as montanhas de Minas; o viajante misterioso que relata a história na primeira pessoa, mas cuja personalidade é incerta; e tia Emiliana, que prepara o grande milagre.Embora nascido no Rio, Cornélio Penna fez-se mineiro pelo tom introspectivo e pelo não dito que impregna seus romances. "Fiquei atraído por essa lógica descontínua de sonho, na qual ficam difusas as fronteiras entre normalidade e loucura, paixão e fé", diz o diretor. Conde confessa-se apaixonado pelo próprio trabalho - "Não é um filme de mercado, mas essa questão é complicada, principalmente quando se quer retratar um mundo como o de Cornélio. O filme tem uma delicadeza e um mistério que impulsionam a ir além das imagens." O elenco ajuda - Berta Zemel, grande atriz, a jovem Débora Goméz, escolhida por teste, e Alexandre Cioletti, com quem o diretor já havia trabalhado no curta. Sendo o filme tão impreciso, Conde fornece uma pista, que é a do estudioso Luiz Costa Lima, para quem a narrativa de Fronteira faz mais sentido se for pensada na perspectiva dos escravos. Seu último comentário é auto-irônico. "Havia feito Samba-Canção, definido como filme maldito apesar do seu escracho e agora fiz este, mais maldito ainda. Mas Samba-Canção virou cult e muita gente terminou por descobri-lo." Sem dizer especificamente, o que Conde pede é que o público dê uma chance a Fronteira.

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