Duas referências da arte mundial

Fragmentos e O Sonho de Andersen, criações de importantes diretores, poderão ser vistas na cidade

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2008 | 00h00

Em tempos em que a celebridade fútil e instantânea vem tomando o papel de modelo no lugar do artista legitimado pelo acúmulo de experiência e por talento refinado em trabalho a longo prazo, é de se comemorar a presença nos palcos da cidade de duas referências do teatro mundial: o inglês Peter Brook e o italiano Eugenio Barba. Depois de integrar a programação do Festival de Londrina - onde tiveram devida e calorosa recepção - os espetáculos Fragmentos (Brook) e O Sonho de Andersen (Barba) chegam à cidade para temporadas-relâmpago, na próxima semana, nos Sesc Santana e Pinheiros, respectivamente. A venda de ingressos - podem ser adquiridos em qualquer unidade do Sesc - começa amanhã e os bilhetes devem esgotar-se em poucas horas, como ocorreu nas outras vezes em que estiveram no Brasil. São duas montagens muito diferentes e talvez o único traço de união seja mesmo a importância da trajetória dos criadores envolvidos. Brook leva ao palco peças curtas do irlandês Samuel Beckett (1906-1989): Fragmentos de Teatro I, Cadeira de Balanço, Ato sem Palavras I, Ir e Vir e, por último, um texto de 20 linhas, Nem Eu, um ?libreto? de ópera criado a pedido de Morton Feldman (1926-1987). Já Barba deu estímulos a seus atores para que fosse criado, em sala de ensaio, o texto de O Sonho de Andersen. O ponto de partida foi o tema da escravidão africana. "Dessa situação histórica terrível brotou e se sedimentou uma grande cultura. Como é possível tal paradoxo? Disso eu queria tratar", diz Barba em entrevista em Londrina. Para tanto, os atores do Odin viajaram à África e a matéria-prima colhida se mesclou à biografia do escritor Hans Christian Andersen (1805-1875). Há outros contrastes. O despojamento marca a montagem Fragmentos que se funda na interpretação dos atores. Há poucos elementos cênicos e uma elaborada, porém de efeito simples, iluminação. Já o espetáculo dirigido por Eugenio Barba tem nada menos do que 11 toneladas de cenografia, entre elas uma arquibancada circular que, instalada no palco do Sesc Pinheiros, acomodará o público. Espelhos no alto e no piso, neve, fogo, animação de bonecos e a forte sonoridade são elementos usados para alcançar o efeito onírico buscado. Barba veio acompanhando os atores do Odin Teatret, entre eles o brasileiro Augusto Omolú e a dupla Roberta Carrieri e Jan Ferslev, intérpretes do belo Salt, a mais recente montagem vista no Brasil antes de O Sonho de Andersen. Já Peter Brook ficou na França. Sua assistente de direção, Marie Hélène Estienne, falou com a imprensa em Londrina, mas também voltou à Europa. No Brasil, além de equipe técnica, ficou o simpaticíssimo trio de atores: o italiano Marcello Magni, a inglesa Hayley Carmichael e o palestino Khalifa Natour. Experientes, de talento evidente, todos os três atuam pela primeira vez sob a direção de Brook.Dois aspectos chamam logo atenção na montagem de Fragmentos - o predomínio do humor e a ruptura com as famosas ?rubricas?, detalhadas e precisas indicações do autor de como a peça deve ser encenada. Especialista em sua obra e seu colaborador em vida, o norte-americano Stan Gontarski, em entrevista ao Estado em março, alertara sobre o risco dos encenadores de Beckett, por conta delas, criarem cópias idênticas e sem vida. Quebrar rubricas ou segui-las, eis a questão. "Beckett e Brook eram amigos, mas jamais trabalharam juntos. Não daria certo; como diretor Beckett era muito rígido", diz Marie Hélène. Mas ela chama atenção para o equívoco da liberdade descuidada. "Só foi liberada a montagem porque o sobrinho de Beckett viu antes e chegou à conclusão de que as modificações não traíam o autor." Em Cadeira de Balanço, seguidas as rubricas, uma mulher balança em silêncio enquanto ouve-se sua voz em off. Ela diz apenas ?mais? quando a voz faz uma pausa. Na encenação de Brook, a cadeira não é de balanço e Hayley fala ela própria o texto, sem voz em off, e sem a sonoridade monocórdia costumeira. A sensação é a de que realmente não se perde em sentido e se ganha em humanidade, em proximidade com o espectador. Permanece presente, com límpida clareza, a sensação de estarmos diante de uma vida que chega ao fim, uma vida como tantas outras, sem deus ou razão que lhe dê sentido. Mas essa idéia geral ganha com a empatia provocada por aquela mulher, que fala de sua mãe, e toma o lugar dela, também envelhece, numa sensível e comovente seqüência. O tom cômico surge forte sobretudo nas peças Ato sem Palavras I, uma abordagem dual da existência, enfrentada respectivamente com bom (Natour) e mau (Magni) humor, e em Ir e Vir, na qual duas mulheres trocam um terrível segredo - ou apenas uma fofoca maldosa ? - sobre a que se ausenta. Assim como a quebra das rubricas, o humor provoca empatia, sem reduzir significações, resultado que em grande parte se deve à qualidade das interpretações.Ao ler o diário de Andersen, Barba descobriu que ele tivera um sonho. Convidado por um rei a viajar, ele erra de embarcação e, para seu terror, se vê à bordo de um navio negreiro. No espetáculo do Odin, Andersen é um boneco e dialoga com Sherazade - e quem poderia simbolizar melhor a arte que nasce da opressão? Exuberante, cheio de imagens, O Sonho de Andersen pede mergulho onírico, muitas associações, e não pode ser decodificado só com a razão. "Há uma poesia de Carlos Drummond cujo título define esse espetáculo: Claro Enigma", diz Barba em português surpreendentemente fluente. Peter BrookPLURALIDADE - Peter Brook nasceu em Londres, em 1925 e estudou Artes em Oxford. Aos 17 anos dirigiu sua primeira peça, Fausto, de Marlowe. O teatro épico de Bertolt Brecht e a cena ritualística de Antonin Artaud são duas fortes influências sobre o jovem Brook. Em 1955, alcança forte repercussão sua montagem de Titus Andrônicus protagonizada por Laurence Olivier. Em 1962 passa a dirigir a prestigiada Royal Shakespeare Company, junto com Peter Hall. Entre dezenas de encenações bem-sucedidas destaca-se Marat-Sade, de Peter Weiss. Despede-se da Royal em 1970 com uma famosa montagem circense de Sonho de Uma Noite de Verão. Em 1971 funda, na França, o Centro Internacional de Criação Teatral (CICT) com elenco multinacional. Intensifica-se, a partir de então, a influência da cultura oriental e africana sobre o seu teatro. Em 1976 reforma em Paris Teatro Bouffes du Nord, fechado desde 1952, que reabre com Timon de Atenas e se torna sede do CICT. Aos 83 anos, Brook já encenou mais de 70 peças, dez filmes, dez óperas, assinou 12 publicações. Antes de Fragments, pelos palcos brasileiros já passaram Le Costume (2000), A Tragédia de Hamlet (2002), Tierno Bokar (2004), Dias Felizes (2005) e Sizwe Banzi Está Morto (2006). Eugenio BarbaANTROPOLOGIA - Eugenio Barba nasceu em 1936, na Itália. Mudou-se para a Dinamarca em 1954 e estudou Literatura na Universidade de Oslo. Em 1961 viaja para a Polônia e passa três anos no Teatro Laboratório de Wroclaw com o pesquisador Jerzy Grotowski, o teórico que influenciou criadores do mundo inteiro ao valorizar a cena essencial. "Com Grotowski aprendi a liberdade." Numa viagem à Índia é marcado pelo conhecimento do Khatakali, a mais antiga expressão teatral indiana. Em 1964 volta à Dinamarca e funda o Odin Teatret com alunos que rejeitados pela escola oficial. Começa aí a desenvolver o chamado teatro antropológico que tem entre seus princípios o de partir sempre das vivências pessoais dos atores. Para ampliá-las, eles viajaram para fazer intercâmbio cultural várias vezes à América Latina e Ásia. Em 1979 Barba fundou a ISTA, sigla de Escola Internacional de Teatro Antropológico. Atualmente o Odin tem uma característica singular: o envelhecimento dos atores, os mesmos desde a fundação, tema de uma cena bem-humorada de O Sonho de Andersen, na qual os atores usam perucas brancas. Em quase meio século de atividade só no Brasil já estiveram em Pernambuco, Brasília, Paraná e Rio. ServiçoO Sonho de Andersen. Sesc Pinheiros - Teatro Paulo Autran (120 lug.). R. Paes Leme, 195, 3095-9400. Dias 4 e 5, 21h; dia 6, 16h. R$ 40Fragmentos. Sesc Santana (349 lugs.). Av. Luís Dumont Villares, 579, 6971-8700. De 3 a 5, 21h; e dia 6, 21h30. R$ 30

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