VALERIA GONCALVEZ/ESTADAO
VALERIA GONCALVEZ/ESTADAO

Duas mostras e uma herança: a neoconcreta

Exposições de Macaparana e do falecido poeta Ferreira Gullar, a primeira no Museu Lasar Segall e a segunda na Dan Galeria, lidam com a tradição construtiva

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

19 Junho 2018 | 06h00

Aceitando sugestão do curador francês Franck-James Marlot, da galeria parisiense Denise René, que o representa, o artista pernambucano Macaparana reuniu no Museu Lasar Segall seus mais recentes trabalhos ao lado de sua coleção particular de mestres que o marcaram, de Albers a Willys de Castro, passando por Calder, Hércules Barsotti, Jean Arp, Max Bill e Volpi – todos representados por obras expostas na sala anexa à mostra dos seus trabalhos inéditos. Não poderia, portanto, ser outro o nome o da exposição: Afinidades.

Em cartaz até 6 de agosto, ela segue em dezembro para o Paço Imperial, no Rio. Em São Paulo, são dez as obras de Macaparana. No Rio, serão 18. Elas não surgiram como releituras das obras dos artistas citados, mas com o propósito de revelar ao público o universo criativo do artista e suas afinidades eletivas. Convivendo desde a infância com o geometrismo da arte popular pernambucana, Macaparana foi posteriormente “adotado” em São Paulo, nos anos 1980, por dois mestres da arte neoconcreta brasileira, Hércules Barsotti e Willys de Castro.

Naquele época, o artista explorava combinações geométricas em obras de madeira reciclada, assemblages que remetiam ao trabalho do pintor uruguaio Torres García (1874-1949), criador do movimento Universalismo Construtivo. Na Europa, Torres García ficou muito amigo do holandês Theo van Doesburg (1883-1931), um dos criadores do movimento De Stijl, embrião do neoplasticismo e da escola Bauhaus. Não por outra razão, a ordem mondrianesca exerceu enorme influência sobre o brasileiro, que apresenta na exposição do Museu Lasar Segall uma obra com referência direta às composições em grade de Mondrian, pelas quais o pintor holandês ficou conhecido.

Pigmento e tinta acrílica sobre cartão lana, a referida obra tem as mesmas dimensões das outras nove em exposição (110 x 102 cm), todas derivadas da matriz construtiva que sempre guiou o trabalho de Macaparana, especialmente marcado pela arte concreta. Um dos artistas brasileiros com maior trânsito internacional – o segundo número da revista alemã Kwer, que circula amanhã, traz trabalhos dele –, Macaparana conta que em setembro será a vez de Barcelona (Galeria A 34) ver sua nova produção (selecionada por Paco Rebés, o veterano marchand que trabalhou com Picasso e Miró).

A relação do artista pernambucano com ícones que fazem parte de sua coleção privada não passa pelo fetichismo. “Como convivo com essas obras diariamente, cada vez que olho um trabalho é como se o visse pela primeira vez”, diz, esclarecendo que não tinha a intenção de prestar tributo aos mestres, mas mostrar como as afinidades “sempre foram naturais” entre artistas. “Naturalmente, o movimento concreto marcou minha trajetória, mas não me vejo como herdeiro dele.”

Neoconcreto. O poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016), refletindo sobre sua condição, escreveu (no livro Sobre Arte, 1982) que “crítico e artista estabelecem uma aliança tácita”. O artista se torna teórico e o crítico se torna artista. Foi mesmo o que aconteceu, um pouco por acaso, com o próprio Gullar, que, em 2014, dois anos antes de sua morte, concordou em exibir seus relevos em papel, “brincadeiras” em que retrabalhava formas de artistas com os quais conviveu – a neoconcreta Lygia Clark – ou simplesmente admirou – como Mondrian. Essas brincadeiras acabaram virando A Revelação do Avesso, parceria da UQ Editions com a Dan Galeria, 60 relevos em papel que deram origem a obras em aço e um livro de arte com poemas escritos pelo próprio Gullar.

A edição se esgotou, mas os originais desses relevos estão em exposição na Dan Galeria e revelam mais que o avesso de Gullar. Eles representam uma espécie de defesa visual da tese neoconcreta de um poeta que rompeu com os concretos – por discordar da estrutura matemática dessa poesia – e redigiu há quase 60 anos (em 1959) o Manifesto Neoconcreto, criando no mesmo ano a teoria do não objeto, que não significa propriamente um objeto inexistente, mas uma obra nascida da evasão do espaço virtual e da ação pictórica.

O ‘avesso’ desses relevos nasceu de forma acidental. Gullar, dizia ele, estava recortando um papel de cor verde quando o avesso, que era de outra cor, se mostrou. Ele colou o recorte e a cor cinza acabou se impondo num estimulante confronto cromático que se multiplica por 85 relevos assinados pelo artista na mostra, dos quais 60, como se disse anteriormente, foram transpostos para o aço nas edições da UQ em parceria com a Dan Galeria.

“Gullar contava também que o gato dele, que vivia enfiado num bicho da Lygia Clark, deu um tapa na folha de papel colorido usado numa de suas colagens e embaralhou os recortes, obrigando-o a colar como estavam, ou seja, na desordem em que se encontravam”, lembra o marchand Peter Cohn, que foi apresentado ao crítico por Macaparana há 15 anos. “Creio que a Revelação do Avesso é um pouco a metáfora da poética do Gullar, essa compulsão em se expor como o fez em seu Poema Sujo”, conclui Cohn.

AFINIDADES

Museu Lasar Segall. Rua Berta, 111, tel. 2159-0400, Vila Mariana. De 4ª a 2ª, das 11h às 19h. Entrada gratuita. Até 6/8.

RELEVOS

Dan Galeria. R. Estados Unidos, 1.638, telefone 3083-4600. 2ª a 6ª, 10h/19h; sáb., 10h/13h.  

Entrada gratuita. Até 14/7.

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