Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Duas exposições de Mestre Didi comprovam vigor de sua obra

Artista dialoga a tradição da ancestralidade africana com elementos do candomblé e da modernidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2018 | 06h00

Mestre Didi, o escultor e sacerdote baiano Deoscóredes Maximiliano dos Santos (1917-2013), não dava entrevistas por causa de um interdição ligada a seus títulos no candomblé. Preferia escrever. Pena. Teríamos hoje, além de seus livros prefaciados por europeus cultos como o sociólogo francês Roger Bastide, o depoimento de um homem religioso sobre sua atividade como artista, o que seria bastante oportuno numa ocasião como esta, em que se registra a rara convergência de duas exposições simultâneas sobre suas esculturas em São Paulo, uma no Museu Afro Brasil, que vai até 10 de junho, e outra na Galeria Almeida e Dale – esta última aberta até sexta, 25, realizada em conjunto com a Galeria Paulo Darzé, da Bahia.

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Um depoimento do mestre neste momento seria esclarecedor, pois persiste uma visão equivocada sobre sua produção artística, ora confundida com artesanato, ora reduzida a uma expressão exclusiva da cultura que diz respeito tão somente a iniciados no candomblé. Essa situação é tão verdadeira que muitas coleções brasileiras importantes não ostentam uma só peça de Mestre Didi, seja por preconceito religioso ou falta mesmo de conhecimento dos procedimentos artísticos de um contemporâneo que não renunciou às tradições africanas.

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Ao contrário: todas as obras de Mestre Didi exibidas nas duas mostras confirmam esse compromisso com a ancestralidade africana, algo que a modernidade europeia teve (e ainda tem) dificuldade de assimilar, a despeito de replicar de modo predatório a cultura africana (exemplo máximo disso é o cubismo picassiano, como lembrou o historiador alemão Carl Einstein em seu livro Negerplastik, isso há mais de um século, em 1915). Os africanos e seus descendentes sempre foram explorados – e não só na Europa, mas abaixo do Equador.

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Nunca deve ter ocorrido a Mestre Didi que suas obras tivessem um valor intrínseco sem visar a edificação dos devotos, por exemplo. Isso não faz desses objetos peças com propósitos sociais e religiosos exclusivos. Ao se concentrar na composição ou nos problemas formais de cada um desses objetos, Mestre Didi estava ao mesmo tempo preocupado em construir refinadas peças rituais e reforçar sua presença na contemporaneidade, uma espécie de diálogo de um religioso com a moderna sociedade laica.

A sua, porém, não é a ideia do confronto. Ele existe, apesar disso. Há uma distância abissal entre o universo arcaico, hierático, de Mestre Didi e o mundo racional, materialista, do século 21, aberto apenas a construções que traduzam o poder dessa civilização pragmática, que abdicou dos objetos ritualísticos e trocou a metafísica pelo besteirol ostensivo (Jeff Koons, por exemplo). A grande dificuldade que as pessoas têm de “ver” as obras de Mestre Didi advém justamente da oposição entre essas duas culturas, da incapacidade de testemunhar a irrupção do sagrado na vida cotidiana – e isso pouco tem a ver com o domínio do repertório simbólico do candomblé.

Por exemplo, um neófito pode entrar numa das duas exposições do artista baiano sem saber que essas esculturas – os xaxarás e os ibiris – são ferramentas do culto do candomblé e trazem embutidos os emblemas dos orixás do Panteão da Terra. Mesmo assim, dificilmente deixará de perceber que tais peças falam de revelações primordiais, da busca da imagem mítica do Axis Mundi, do eixo cósmico, regulador, que aparece em todas as culturas ancestrais.

A esse respeito a curadora da exposição, Denise Mattar, lembra que essas obras, como dizia Mestre Didi, são mesmo “recriações do mundo mítico do candomblé que revelam valores estéticos associados ao sagrado, na justa medida em que essa revelação é permitida”. Em outras palavras: as serpentes esculpidas por Mestre Didi podem assumir uma dimensão mítica – a do animal rastejador que sai das profundezas da terra para chegar ao céu, representando a ascensão de Oxumaré – ou simplesmente ser reduzida por um espectador materialista a uma tosca representação de serpente, feita de nervura de palmeira, couro pintado, búzios e contas.

Como disse o mitólogo romeno Mircea Eliade, de tanto repetir que o homem das sociedades arcaicas, com seus mitos e ritos, não passava de um insano supersticioso, o homem moderno acabou por se convencer disso. No prefácio do catálogo da exposição, aliás, Tahis Darzé chama a atenção para o uso respeitoso que Mestre Didi faz dos emblemas do universo Nagô e de materiais retirados da natureza. Mas o faz como forma de transfigurar com liberdade esses signos. Darzé prefere a palavra ‘antropofagia’, aproximando Didi da modernista Tarsila. Mais uma questão a se pensar.

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