Duas cidades

O final da Bíblia poderia ter o mesmo título do livro de Charles Dickens: é uma história de duas cidades. O Apocalipse trata do Juízo Final e do novo céu e da nova terra que virão, mas as grandes personagens do drama são Babilônia e Jerusalém. Personagens marcadamente femininas: Babilônia, a grande prostituta, "vestida de linho fino, de púrpura, de escarlate e adornada com ouro e pedras preciosas e pérolas" cujos pecados se acumularam até o céu e provocaram sua destruição, e Jerusalém, a "mulher do Cordeiro" que desce do céu "como uma esposa ataviada para seu marido", no advir dos novos tempos. Jerusalém, segundo a Bíblia, "tinha a glória de Deus, e a sua luz era semelhante a uma pedra preciosíssima, como a pedra de jaspe, como o cristal resplandecente". Ou seja, a virtuosa Jerusalém não brilhava menos do que a pecaminosa Babilônia. Não era menos feminina.

Verissimo, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

As cidades são sempre mulheres, se Babilônia ou Jerusalém depende de quem as descreve. A literatura está cheia de cidades evocadas com paixão ou ressentimento - geralmente vistas do exílio, ou de uma distância que as mitifica - e há sempre algo de amoroso ou desiludido na evocação, sentimentos associados com a perda de um território afetivo, maternal. Cidade é sempre mãe, seja prostituta de escarlate ou mulher do Cordeiro. Só muda o modo como é lembrada.

São Petersburgo era, para Vladimir Nabokov, ao mesmo tempo o cenário sagrado da sua infância e o símbolo do que lhe foi roubado, com a ida forçada para o exílio. Evocando São Petersburgo ele evocava, além da vida idílica que levava, os privilégios perdidos da sua classe, numa síntese do pessoal e do histórico que, se não foi exatamente justa com a revolução, deu grande literatura. De qualquer jeito, para a Rússia se não para Nabokov, São Petersburgo foi primeiro Babilônia, uma capital da perdição, e depois Jerusalém, uma promessa de tempos virtuosos.

A Dublin de Joyce e a Florença de Dante foram retratadas a distância, e um usou sua cidade e seus habitantes como metáfora para o mundo e o outro foi mais longe, usou sua cidade e seus habitantes numa metáfora sobre este mundo e o outro. Joyce se autobaniu de Dublin mas nunca a abandonou realmente, Dante foi banido de Florença mas, em pensamento, nunca a deixou. Ambos foram filhos fiéis de mães ingratas. Não se pode fazer maior homenagem a uma mãe do que lembrar seu cotidiano como uma representação da experiência humana sobre a Terra, ou pensar nela ao construir um modelo do além, incluindo o Inferno.

Nunca esquecer Jerusalém é um adágio da fé judaica. A Jerusalém do Apocalipse do apóstolo João não é a Jerusalém dos judeus - e é. Há uma Jerusalém no centro de todas as fés, um ponto em que a cosmogonia de cada uma toca o chão, um polo da sua história e um santuário dos seus mistérios. E é sempre uma cidade, resplandecente como uma mulher inesquecível.

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