''Drummond deu voz ao que não consigo dizer''

Nascido em Belo Horizonte, Humberto Werneck (1945) jornalista há mais de 40 anos, tendo passado por alguns dos principais órgãos da grande imprensa brasileira, como Jornal da Tarde, Veja, Jornal do Brasil, Isto É, Jornal da República e Playboy. Tornou-se jornalista em maio de 1968, levado pelo contista Murilo Rubião para o Suplemento Literário do Minas Gerais, diário oficial do governo mineiro. É autor, entre outros, de O Desatino da Rapaziada, retrato da geração de escritores mineiros, como Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, que se renderam ao jornalismo, de O Santo Sujo, biografia de Jayme Ovalle, e de Pequenos Fantasmas, livro de contos.Werneck organizou Minérios Domados, seleção da poesia de Hélio Pellegrino, e Boa Companhia, reunião de trabalhos de 42 cronistas. Escreveu a reportagem biográfica de Chico Buarque para Tantas Palavras (2006), sobre a obra do compositor. Está trabalhando em dois projetos - um livro infanto-juvenil sobre Belo Horizonte e O Pai-dos-Burros, Dicionário de Lugares-Comuns e Frases Feitas.Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras?Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, sempre me reserva alguma surpresa -- e também humilhação: como pude passar tantas vezes por um verso sem me dar conta de toda a riqueza que há nele? Dê exemplo de um livro muito bom injustiçado, pelo público ou pela crítica.João Ternura, o romance de Aníbal Machado, não recebeu ainda a atenção que merece. Não vale botar toda a culpa no título enjoativo.Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.O Velho e O Mar, de Ernest Hemingway. Aquele sujeito discursando para aquele peixe... humm...E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.Três Mulheres de Três PPPês, de Paulo Emílio Salles Gomes. Puro preconceito: como se um ótimo ensaísta não fosse capaz de produzir ótima ficção. A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal. A revelação tardia de Diadorim aos olhos de Riobaldo no Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Dona Severina vendo dormir Inácio no conto Uns Braços, de Machado de Assis. E tudo aquilo que (não) acontece em Frederico Paciência, de Mário de Andrade. Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor?Capitu, de Machado. Lolita, de Nabokov. Emma Bovary, de Flaubert. Jay Gatsby, de Fitzgerald. E um vasto etc.Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?O Estrangeiro, de Albert Camus.E que livro mais o fez pensar?As Palavras, de Sartre.De qual autor você leu tudo, ou quase tudo? Carlos Drummond de Andrade, por dar voz a muito do que não consigo dizer. Existe algum autor como o qual você jamais perderia seu tempo?Vários. Até por isso, não perderia tempo em citá-los. Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu.O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, lido e relido desde os 12 anos de idade. Continuo achando que é um grande romance. Você considera a literatura policial um gênero menor? Não pode ser considerado menor um gênero a que pertença O Falcão Maltês, de Dashiel Hammett.Os livros de autoajuda são mesmo todos ruins, ou isso é puro preconceito da crítica? Sou contra a automedicação. Drogas, só com receita médica.Um livro meio chato, mas bom.Se é meio chato, é no máximo meio bom.Um livro que você acha que deve ser muito bom mas jamais leu.A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Em diversas investidas, nunca passei do meio da encosta. É dessas leituras que requerem uma hepatite. Um livro difícil, mas indispensável.O Som e a Fúria, de Faulkner.Um livro que começa muito bem e se perde no caminho.A Bíblia. Não é que se perca: fica menos interessante d.C.Um livro que começa mal e se encontra.Os Sertões, de Euclides da Cunha. É chão demais até chegar à luta...Um livro ruim, por ser pretensioso.Qualquer um que pretenda ser "um vasto painel de época".Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?Vários. Proponho uma Teoria da Vênus de Milo, segundo a qual muita obra melhora se bem aparada. Conheci um editor americano que queria meter a faca no Drácula, cortando tudo o que não seja canino na carótida. Achava que Bram Stockler, com sua fastidiosa descrição da Transilvânia, era uma espécie de Euclides da Cunha de A Terra. Um Euclides do sobrenatural, digamos. De que livro você mudaria o final?Livro cujo final precise ser mudado não vale esse esforço.Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.Devem ser boas as traduções dos livros de Paulo Coelho. Não têm erros de português.A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?Vista do Rio, romance de Rodrigo Lacerda.Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando à leitura?O Amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, se Antonio Candido já não tivesse escrito antes, e com incomparável competência. Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?Sinto falta de O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. E nenhuma de José de Alencar.Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?Carlos Sussekind, por exemplo, ao ler um artigo de Hélio Pellegrino saudando o lançamento de Armadilha para Lamartine, nos anos 70. Cite um vício literário que você considera abominável.O empenho em enfeitar o texto - aquilo que João Cabral chama de perfumar a flor. Que virtude mais preza na boa literatura?O poder que têm alguns livros de se desgrudar da literatura e se incorporar à experiência do leitor, ajudando-o a viver.

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