Drinque com pedradas e diversão

Juca de Oliveira usa frequentemente o termo "predador" em textos e conversas. Ele realmente têm horror à tendência humana à guerra de todos contra todos, como alertou o inglês Thomas Hobbes, expoente da filosofia moral em seu ensaio clássico, Leviatã. Este ator admirável e dramaturgo sintonizado com seu tempo poderia ter sido tentado a pregações derivadas do marxismo da juventude ou, numa mudança de rumo, enveredar pelo neoconservadorismo ressentido. Curiosa e felizmente aconteceu outra coisa. Juca ficou parecido com Mark Twain. O grande romancista americano era um temível desaforado. Embora escrevesse história com bom humor e poesia, enviava ao mesmo tempo cartas devastadoras contra as deficiências dos serviços públicos, fosse o correio ou qualquer repartição governamental. Estilos à parte, Juca vai pelo mesmo caminho. Faz comédias de espírito compassivo, mas sem deixar de "descer a lenha" como diriam seus amigos do interior paulista, onde nasceu (e sem esquecer a porção de sangue italiano que ele tem). Um pouco disso está em Happy Hour, coquetel de críticas, denúncias e deliciosas implicâncias. Eis um artista em pleno "delírio realista", expressão que não é mero jogo de palavras porque o exagero nasce da vida concreta. Dramaturgo/ator e o cidadão estão cansados, um pouco tristes e irritados com o naufrágio das instituições, a usurpação do poder por medíocres de intenções suspeitas e, por fim, a degradação das relações humanas no cotidiano das ruas.O espectador ri bastante, mas, se puder, que tente não se ver no enredo. Juca está atrás dos predadores, de todos aqueles que destroem a dignidade da função pública e as bases da cidadania ao extremo da selvageria no trânsito. Talvez alongue episódios, como os desvios conjugais de figuras menores, mas, no geral, os temas são certeiros. É interessante notar como o lançador de petardos contra a baixa política sabe observar as projeções neuróticas dos adultos em geral. A estupidez humana é flagrada no instante em que deveria haver afeto e solidariedade; e aí o dramaturgo assume a dimensão da existência mais ampla. Dessas alternâncias se fez uma obra consagrada (Meno Male, Motel Paradiso, Baixa Sociedade, Caixa Dois, Gato Viralata, Às Favas Com os Escrúpulos entre outros títulos). O espetáculo é um encontro do conversador expressivo, pleno de imagens sugestivas, com seu público. Apesar do cenário impessoal (apressada simulação de um bar), o ator e a figura pública Juca de Oliveira conseguem entrar em comunhão com a plateia, despejando desaforos contra o caos nacional, sendo irresistivelmente engraçado, sobretudo na antológica aula de palavrões. Diretor sutil, Jô Soares age como um baterista que deixa o ritmo escorrer de palhetas semi-invisíveis. Sempre parceiro do autor e do intérprete. Happy Hour é, pois, concerto de humor, protesto social e apelo à delicadeza que, um dia, existiu nesta cidade "que não tem mais fim, não tem mais fim", como escreveu o poeta Torquato Neto há mais de 30 anos. Entre pedradas cívicas e ironias insólitas, Juca faz um brinde aos admiradores do seu caloroso talento.Serviço Happy Hour. 60 min. 16 anos. Teatro Jaraguá. Rua Martins Fontes, 71, 3255- 4380. 5.ª a sáb., 21h30; dom., 19 h. R$ 60. Até 12/7

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