Drama dos mexicanos na terra dos astros

Sob a Mesma Lua põe em debate a questão dos imigrantes na Califórnia

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2008 | 00h00

Terceira maior bilheteria do cinema mexicano nos EUA, após E Tua Mamãe Também e Como Água para Chocolate, e sétimo maior sucesso em toda a história do cinema no México - após os dois filmes citados e também O Crime do Padre Amaro e Amores Perros -, Sob a Mesma Lua é aquele tipo de filme que agrada mais ao público do que aos críticos. Nos EUA, eles foram calorosos com a diretora Patricia Riggen, desde que seu filme estreou no Sundance, em janeiro do ano passado. Mas no México, ela colheu pancadas por ter colocado um final feliz na história que trata de um tema espinhoso - a emigração de mexicanos para o país vizinho -, e também por ter escalado um comediante muito popular no México, Eugenio Derbez, para um papel dramático. "Creio que os palhaços muitas vezes conseguem passar para a gente, com mais intensidade, a essência do drama, talvez porque vivam de rir das próprias desgraças", ela explica numa entrevista por telefone. Veja trailer de Sob a Mesma Lua A entrevista começa em inglês, mediada por um agente da Fox Searchlight, que distribui o filme internacionalmente. O repórter pergunta se é possível fazê-la em espanhol. "Por favor, sou mexicana", diz Patricia. Seria muito colonizado fazer um inglês a entrevista sobre o filme que trata justamente sobre as dificuldades de um garoto mexicano para atravessar a fronteira, em busca da mãe que trabalha em Los Angeles. A história é real? "Não é real no sentido de que não estou falando de nenhuma pessoa particular, mas com certeza é real porque reúne elementos das histórias de 4 milhões de mexicanos que atraverssaram a fronteira e vivem, muitos deles ilegalmente, na Califórnia."Logo no começo, o apresentador chicano de um programa de rádio, do tipo Desperta Los Angeles - o nome correto é El Cucuy de la Mañana -, refere-se ao governador Arnold Schwarzenegger como ?cabrón? e diz que o exterminador do futuro se recusa a rever as leis de imigração e até promete endurecê-las, embora seja ele próprio um imigrante que precisou virar astro em Hollywood e se casar com uma Kennedy (Maria Shriver) para adquirir a cidadania norte-americana. O repórter realiza a entrevista no dia seguinte à confirmação da vitória de Barack Obama. "Talvez seja injusto depositar tantas esperanças num só homem, mas estamos cheios de expectativa. Se Obama restabelecer o conceito da América como ?melting pot? (um caldeirão de raças e nacionalidades), teremos um avanço e tanto."Patricia Riggen tornou-se conhecida como diretora de curtas. Um deles a trouxe ao Brasil, para participar do Festival Internacional de Curtas de Zita Carvalhosa. Ela adorou São Paulo. "Se não fosse feliz com minha nacionalidade mexicana, gostaria de ter nascido brasileira." Quando o roteiro de Sob a Mesma Lua lhe foi oferecido, era outra coisa. O menino fazia a travessia da fronteira em busca da mãe, conhecia o pai e a relação era entre os dois. Patricia, até por ser mulher, preferiu colocar a ênfase na relação entre mãe e filho e criou a metáfora da Lua como o elemento de união entre ambos. Alguma coisa a ver com La Luna, de Bernardo Bertolucci? "É um belo filme, mas Bernardo não inventou a psicanálise e a mãe Lua remete a culturas ancestrais", diz a diretora.No roteiro reescrito por Patricia Riggen - sem crédito -, o pai reencontrado termina decepcionando o filho, mas isso não faz dele um monstro. "Queria que o personagem fosse humano, alguém que não consegue arcar com o peso de suas responsabilidades." Da mesma forma, o imigrante clandestino que leva o garoto até o pai cresceu na concepção da diretora - e ainda mais na interpretação de Eugenio Derbez. "A participação dele era pequena, aparecia pouco e só fazia a passagem do menino para o pai. Achei que seria mais interessante transformá-lo num pai substituto, em alguém que vence o próprio egoísmo e preconceito e despe a couraça dura a ponto de se sacrificar. "É o meu personagem preferido", confessa a diretora. "Eugenio o representa lindamente."Adrian Alonso, que faz Carlitos, o garoto - Kate Del Castillo é a mãe, Rosario -, fez o filho de Antonio Banderas e Catherine Zeta-Jones na série do Zorro. Isso fez dele um astro infantil no México. Ao regressar ao país para selecionar o elenco de Sob a Mesma Lua, Patricia foi diretamente a Adrian, mas ela confessa que se decepcionou. "O teste dele não foi bom e eu demorei para perceber que Adrian precisa de rédea larga. Ele é melhor quando tem liberdade para improvisar. Quando isso ocorre, sua intuição é extraordinária." Antes mesmo que ela estivesse convencida, pesaram a favor de Adrian Alonso dois fatores. "Ele não é um menino bonito. É gracioso, simpático, mas não é bonito e isso me parecia tornar a história mais verdadeira. E, depois, existe essa revista de esquerda no México - Il Proceso - que fez uma entrevista política com ele, conversando com Adrian como se fosse um adulto, sobre temas controversos como a própria imigração. Ele dizia coisas muito pertinentes, que não pareciam vir de uma criança."Ter feito um filme de tanto sucesso alegra o coração de Patricia Riggen. "O filme conquistou a audiência mexicana de Los Angeles. Ando pela cidade, vejo as pessoas que são iguais a mim e penso que consegui chegar ao coração delas. Fico emocionada." Talvez o leitor deva parar aqui, antes de ler a próxima frase. O final feliz não é uma estratégia para ganhar público. "Seria mais realista fazer um filme no qual tudo desse errado, mas esses personagens adquiriram vida para mim e impuseram, eles próprios, o desfecho. Essa história com final infeliz seria igual a muitas outras que o cinema já contou, não só no México, mas em toda América Latina." Todo esse sucesso fez dela uma diretora com facilidade para tocar novos projetos? "Estou lendo alguns roteiros, e devo fazer alguma coisa pequena, mas muito humana. Meu próximo projeto do coração é uma adaptação do romance La Hija de la Fortuna, de Isabel Allende, que espero concretizar com Raffaela De Laurentiis, mas este será um filme maior e mais caro. Espero chegar a fazê-lo, mas com prudência." ServiçoSob a Mesma Lua (La Misma Luna, México-EUA/ 2007, 107 min. Dir. Patricia Riggen. Livre. Cotação: Bom

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