Douglas, a rebelião no solo de um trompete

Duas vezes indicado para o Grammy, ele evita standards e busca alternativas

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

09 Outubro 2007 | 00h00

O trompetista Dave Douglas é um dos mais modernos músicos do seu instrumento na atualidade. Moderno equivale a dizer: inovador, desligado das correntes do passado, como o bebop ou o free jazz (mas com amplo conhecimento desse desenvolvimento histórico) e instigante. Foi duas vezes indicado para o Grammy, em 2003 e 2005. Douglas se apresenta hoje com seu quinteto em São Paulo, mostrando o repertório de Meaning and Mystery, seu álbum mais recente, no qual ele não recorre a standards: todas as composições são suas. O quinteto tem o fantástico pianista Uri Caine (agora tocando um teclado Fender Rhodes), Donny McCaslin no sax tenor, James Genus no baixo e Andrés Rivas (substituindo o titular Clarence Penn) na bateria. Aos 44 anos, é um dos artistas mais inquietos e libertários do jazz. Para não ter de negociar seus princípios, criou o próprio selo musical, Greenleaf Music (www.greenleafmusic.com). No site, um de seus colaboradores elogia, mas ao mesmo tempo questiona a estratégia do grupo inglês Radiohead de liberar seu novo disco na rede (o consumidor decide quanto paga pelas músicas). Segundo considera, a iniciativa tende a esvaziar sites que disponibilizam música gratuitamente, como o Kazaa. Na semana passada, Douglas tirou um tempinho para falar ao Estado por telefone, de sua casa em Nova York. A maior preocupação sua, quando faz música, sempre é a inovação? Suponho que sim. Mas quando digo inovação, falo num nível muito pessoal. Eu acho que é errado tocar a mesma música todo o tempo, mesmo a música de outras pessoas. Um artista tem de ter algo novo a dizer. Mas algo que tenha um significado. Uma declaração como ''''eu te amo'''' sempre será repetida, mas é sempre algo novo. Não é possível que uma pessoa diga eu te amo todo dia a quem vive consigo sem que seja de fato aquilo que esteja sentindo. Amo todo tipo de música, mas não consigo sentar e dizer: ok, agora vou fazer só música erudita. Não funciona assim comigo. Ouvindo seu disco lançado em julho, Live at Jazz Standard, parece que seu trompete está criando imagens propositadamente, como num cartoon ou num filme. É sua ambição? Sim. Sempre procuro criar música que evoque imagens, ou que seja divertida. Especialmente no jazz, você não pode ser sério o tempo todo. Eu me rebelo contra essa idéia de seriedade. Claro que a música é pessoal e séria, mas não se pode ter demasiada solenidade. Eu tento criar alguns elementos que soem como se fosse um filme ou um cartum. Assim como na vida, há muita coisa trágica, mas também muita coisa divertida. Há alguns anos, por exemplo, fiz o disco Keystone, trilha para Keystone, um filme mudo sobre um comediante do começo do século, Roscoe ''''Fatty'''' Arbuckle. Ele foi o mestre de Buster Keaton. Gosto muito daquele período, mas deploro o clichê que se formou em torno da música old fashion. Tento fazer uma virada para algo mais moderno. E o seu selo musical? Como lida com essa questão de um selo de música na internet? Bom, eu acho que a internet não serve só para fazer download. É possível usá-la para fazer com que a arte chegue ao público, nem sempre de forma comercial. A tecnologia está mudando a música, isso é um fato. Muda a cada ano mais rápido. Os músicos estão usando os estúdios de gravação como mais um instrumento, e há aqueles que fazem seus próprios estúdios domésticos, em casa, no quarto. Tudo ficou mais fácil. Mas a minha tentativa é de usar a tecnologia para expressar humanidade, ajudar a humanidade a ser criativa. É verdade que você viveu alguns meses no Brasil? Sim, eu morei aí, mas isso foi há 24 anos. Daquele tempo, só lembro de algumas palavras em português: farofa, obrigado. Agora também sei falar ''''Ronaldinho''''. O que fazia aqui no Brasil? Bom, eu fui para o Brasil para uma turnê, e fui tocar num hotel em Itaparica. Acabei gostando tanto que fiquei por ali mesmo. Não fiquei fazendo nada, apenas praticando com o trompete. Preciso voltar a Itaparica um dia desses. Uma vez você compôs uma peça chamada Thoughts around Mahfouz, baseada em suas leituras do escritor egípcio Naguib Mahfouz. A literatura é sempre importante no seu processo criativo? Abre sua imaginação, é claro. Mahfouz me fazia ouvir música enquanto eu o lia. É igual à música de Tom Waits, que já é uma espécie de literatura musical. Eu sempre leio muito. Gostaria de dizer uma coisa antes de nos despedirmos: quero que fique registrado o quanto estou contente de voltar ao Brasil com essa banda atual. Eles são alguns dos melhores, é uma das melhores formações com quem já toquei. E estou especialmente orgulhoso de estar em turnê com eles.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.