''Dou valor à forma. Sou um sambista parnasiano''

Gênero enfrenta o bombardeio transnacional do pop, na visão do compositor, e a hegemonia cultural norte-americana é uma questão de poder, não de qualidade

, O Estadao de S.Paulo

24 de agosto de 2009 | 00h00

Acha que a biografia ganha mais peso depois que o biografado morre? Acho, sim, que a biografia fica mais forte depois da morte, porque o escritor tem uma perspectiva mais ampla e o leitor tem, de fato, um panorama. O cara vivo, você não sabe o que ele vai virar, se vai fazer aliança com o Collor...Quantas páginas teria uma biografia completa de Nei Lopes?Umas 500 páginas com letras em corpo miúdo.Quem destaca da atual geração?Gosto do Quinteto em Branco e Preto, do Leandro Sapucahy, do Seu Jorge. Tem de ver se eles vão conseguir impor suas ideias ante o imediatismo das multinacionais. Eu gostaria que conseguissem.Biografias são delicadas, pois o que o autor escreve passa a ser visto pelo público como verdade absoluta. Acho que é possível fazer um retrato fiel de Nei Lopes?Minha vida foi e tem sido muito intensa. De vez em quando eu me lembro de fatos que estavam lá no cantinho da memória. No caso desta biografia, que é mais um perfil, acho que há muita coisa a acrescentar. Mas o essencial está lá.O livro mostra sua luta pelos direitos dos negros. Houve alguma evolução em relação ao espaço deles na sociedade?Houve ganhos a partir da década de 1970, mas muita coisa vem sendo esvaziada pela folclorização e pelo foco no lazer e no entretenimento. O fato de termos negros atores e modelos não é mais importante do que o número de nossos filhos e sobrinhos que estão chegando à universidade e assumindo, como intelectuais, o protagonismo do nosso discurso. Isso nunca é enfatizado.Acha que a eleição de Obama mudou alguma coisa para os negros de fato? E as ações do governo Lula em relação aos direitos do povo negro?Sim, a gente começa ver que é possível "chegar lá". O governo Lula foi o que mais avançou nesse sentido.O Vale Cultura é o caminho certo para fazer com que a população tenha acesso à cultura?É populismo. A "cultura" do atual governo não é a ação cultural de que precisamos. É a cultura das grandes corporações, das panelinhas de patrocínio.O samba é um dos principais cartões-postais do Brasil no exterior, mas ainda é tratado como uma arte inferior aqui dentro do próprio berço. Não é um paradoxo?O grande problema do samba é que, de um lado, ele tem contra si o bombardeio transnacional do pop. Do outro, há uma truculência burra que só o vê como show business, sem levar em conta que os conteúdos históricos e simbólicos do samba também podem render dividendos.Acha que a nova geração se interessa cada vez mais por gêneros tradicionais, como o samba e o choro?O samba tem uma modernidade intrínseca, pois a cada momento se renova, através de subgênros e estilos. O melhor exemplo foi a bossa nova, como são, hoje, o samba-jazz, o samba-rock, e o samba-rap, que já começa a surgir. Felizmente, há jovens que pensam assim.Seu trabalho faz a junção de erudito e popular, como fez o Mário Reis?Não acho que eu tenha conseguido tudo isso. Cerca de 80% das minhas canções não chegam ao grande público porque alguns intérpretes e produtores acham que "o povo não vai entender". O conhecimento livresco e o saber natural sempre se complementaram.Você tem um estilo de crônica urbana, que retrata o cotidiano carioca de forma imagética. Quais foram suas maiores influências?Eu aprendi a rimar lendo Olavo Bilac e Raimundo Correia. Dou muito valor à forma, sou um sambista parnasiano (risos). Bilac me levou a ouvir Dilermando Pinheiro, Jota Cascata, aqueles sambas cujas letras já são batucadas.Você acredita que existem divisões acentuadas no samba?Tudo é samba. O João Gilberto foi buscar a matriz de seu repertório no baú da sincopação: Zé da Zilda, Haroldo Barbosa e Jaime Silva. O João Gilberto, apesar daquela aura estranha, sabe "onde a coruja dorme".Recentemente, Hermeto Pascoal e Caetano Veloso entraram em conflito. Hermeto disse que a música brasileira é a melhor do mundo. Caetano defendeu a americana. Qual sua opinião?O Caetano sabe tudo, não é? Para mim, o Brasil tem um potencial e uma diversidade muito grandes, mas acho que Cuba tem sabido aproveitar melhor a menor diversidade que tem. Os Estados Unidos não têm diversidade nenhuma e mandam na música mundial. Tudo é uma questão de poder.Você fazia jingles por encomenda. Chegou a fazer sambas?Eu fiz samba enredo até pra uma escola de samba gay de Londres. Recebi em libras, num misterioso pacote pardo, num ensaio da Vila Isabel, na década de 1990.Quando abri o pacote e vi, junto com uma camiseta da "samba-school", aquelas notas roxas, quase que tive um troço.Qual a influência de orquestras, como a Tabajara, na sua obra?Tive um irmão trombonista, e, quando criança, toquei percussão na banda da Escola Mauá. Acho que veio daí o meu gosto por orquestra. A Tabajara é uma referência. Pena que o humorismo da TV tenha atribuído ao nome Tabajara a conotação de coisa ruim. Eu, se fosse o maestro Severino Araújo, metia uma bronca na Justiça.Com qual artista você gostaria de ter gravado?Tenho várias músicas que gostaria de ouvir na voz do Emílio Santiago. Outro sonho seria que a Alcione, minha maior intérprete, gravasse um disco só com composições minhas, daquelas escolhidas a dedo.

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