Dormindo em pé, com meus sonhos

O esquecimento é uma das formas da memória, escreveu J. L. Borges. Para quem escreve ficções, esquecer é um estímulo para inventar o passado, que é uma das matrizes da literatura. Mas quando o cotidiano é atropelado por lapsos e distrações reincidentes, além de inúmeras falhas da memória, não é a ficção que envolve o ser humano e sim uma temível nebulosa: a senilidade. Pensei nisso quando conheci o velho Estevão, que nada tem de senil. Você não sabe o que é viver quase um século, ele disse. Às vezes nem eu sei, porque esqueço minha idade, meu aniversário, e às vezes esqueço que ainda estou neste mundo. Estevão, que mora numa pensão em Santa Cecília, me contou que os hóspedes - estudantes do interior de São Paulo e do Paraná - o apelidaram de Eterno. Não gostou do apelido: Eterno é aquele jovem de bermuda que corre todas as manhãs. Eu sou uma estátua de ossos revestida de pele, uma escultura que se desfaz a cada dia. A pensão é administrada pelo filho do Eterno, um "garoto" de 53 anos. Estevão desconhece a internet, mas lê jornais e comenta as notícias com um hóspede ou vizinho; na manhã seguinte tenta lembrar-se das catástrofes do dia anterior. Come três bananas ao amanhecer e mais três quando escurece. Coma muitas bananas, ele me aconselhou. Graças às bananas que comi nos últimos 32 anos, ainda conservo momentos de lucidez. O Eterno exagera. É um homem razoavelmente lúcido e de hábitos severos. E também de temperamento calmo, desde que o assunto não seja política. Às vezes eu o visito aos sábados na pensão próxima à Barão de Tatuí, onde ele gosta de observar, sentado numa cadeira com assento de palha, o movimento da rua e dos hóspedes. Na última visita, quando me revelou seu apelido, disse que anotava numa caderneta tudo o que devia fazer, "como o personagem do romance do escritor colombiano. O bigodudo". Eu me identifico com aquele velho enamorado, ele disse. Com duas diferenças: tenho sete anos a mais e não tenho mulher, jovem ou velha, alegre ou triste. E para que teria? Da cintura para baixo sou imprestável, inútil. Disse isso enquanto olhava uma hóspede loira, quase nua no calor amazônico daquela tarde paulistana. Eterno, você está tão elegante, disse a moça. Uma hóspede de Campinas, ele observou, folheando com zelo a caderneta até encontrar o que procurava. Essa beldade me trata com dengo porque deve três meses de aluguel e tem medo de ser despejada. Meu filho é um bobalhão, fecha os olhos para os devedores. Quer dizer, para essa princesa inadimplente. Ele pensa que a nudez da moça pode pagar as despesas da casa. E a gente trabalha para pagar contas. Segurou o jornal com mãos firmes, de cirurgião. De repente, as mãos dele tremeram, ele me olhou com o rosto contraído e repetiu: Uma grande vergonha, mais uma bofetada na nossa cara. De que o senhor está falando? Esse homem foi impedido de governar o País e agora foi eleito presidente de uma comissão no Senado. O povo já se esqueceu disso? Já se esqueceu da farsa do caçador de marajás? Que memória admirável, seu Estevão. Minha memória só retém pesadelos, ele disse, entortando a boca. Quando estou com sorte, lembro cenas de prazer, lampejos... Uma algazarra que vinha do corredor da pensão o interrompeu. Estevão tentou erguer-se, mas desistiu. Enquanto ele olhava para o interior da casa, o jornal caiu na calçada; juntei as folhas e dei o jornal para ele. Quando os hóspedes fazem essa zoada durante a noite, toco o sino e eles se acalmam. Sino? O sino pendurado no teto do meu quarto. Puxo a corda, faço um estardalhaço de sons, eles sabem que as badaladas pedem silêncio. Dão festinhas com bebedeira ou conversam em voz alta? Fazem festas, reuniões, tocam e cantam músicas que não entendo. Minha esperança é perder a audição nas próximas semanas. Semanas, não. Meses. Para ser generoso com a minha sobrevivência. Um surdo não ouve tanto disparate. Eu não ia sentir falta de nada, só da voz dos meus sambistas preferidos, a música de Cartola, Pixinguinha... Ele me olhou com uma expressão dolorosa, como se lembrasse de alguma coisa. Depois corrigi minha observação: o olhar dele era triste. Mas logo deu uma risada e abriu o jornal, que tapou seu rosto. Notei que o jornal estava de ponta cabeça, mas ele fingiu que estava lendo e eu fingi que não havia percebido nada. Nem sempre os hóspedes fazem barulho durante a noite, ele disse, sem mostrar o rosto. Aos sábados uma hóspede... Uma mocinha dorme com um rapaz. Hoje à noite, por exemplo... O que vai acontecer? Eles vão namorar. Escuto uma conversinha em voz baixa, um sussurro que vem do fundo da noite. Depois escuto uns sons maravilhosos, como se eu estivesse em outro mundo, mas eles é que estão. Ou nós três. Sons que vão crescendo, até encher o quarto deles, o corredor, a casa, Santa Cecília, o centro de São Paulo. Gemidos e risadas agudas, graves. Toca o sino? Não. Isso nunca. Saio do meu quarto na ponta dos pés, que nem um ladrão, ou um cego. Encosto a cabeça na porta do quarto do casal e fico ali, dormindo em pé, com meus sonhos. Parou de falar e o jornal caiu das mãos dele. Permaneceu com as mãos no ar, como se segurasse a folha de papel. O Eterno chorava em silêncio.

Milton Hatoum, O Estadao de S.Paulo

20 Março 2009 | 00h00

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