Donas de casa mineiras viram estrelas da música

Senhoras de 44 a 89 anos, do grupo Meninas de Sinhá, saboreiam a fama de gravar disco e ganhar prêmio

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2008 | 00h00

Imagine um grupo que ganha o Prêmio TIM na categoria regional, em pleno palco do Teatro Municipal do Rio, e, nos bastidores, recebe afagos de Paulinho da Viola e Dominguinhos e convites para futuras gravações de Ivete Sangalo e Elba Ramalho. Agora pense em 35 donas de casa da periferia de uma grande cidade, que resolvem se reunir para cantar cantigas de roda, e, assim, lidar melhor com as muitas dificuldades do dia-a-dia.Pois saiba: estamos falando das mesmas Meninas de Sinhá, que lançaram seu primeiro disco, Tá Caindo Fulô, no ano passado. O CD, com 19 cantigas, encantou não só o júri do TIM, mas também a atriz Ângela Leal, criadora do Prêmio Rival de Música, que chegou a inventar uma nova categoria este ano, a ''Aval do Rival'', só para homenagear as mulheres do Alto Vera Cruz e suas adjacências (na região Leste de Belo Horizonte).As ''meninas'', que têm entre 44 (Joana) e 89 anos (Dona Geraldinha) e formaram o grupo há dez anos, resgataram, de memória, canções como Alecrim (''Alecrim, alecrim dourado/ Que nasceu no campo sem ser semeado'') e Sambalelê (''Sambalelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada...'').A faixa-título pergunta: ''O que seria a vida sem obstáculos para se superar?'' A líder comunitária Valdete da Silva Cordeiro, de 69 anos, fundadora do núcleo inicial que deu origem ao conjunto, conta que foram muitos os percalços. ''Eu ficava preocupada com as mulheres tomando antidepressivo. Percebi que elas não precisavam de remédio, e sim de auto-estima, e começamos a fazer trabalhos manuais. Depois passamos para expressão corporal e a cantar.''Até durante a viagem ao Rio para receber o TIM (no dia 28 de maio) elas passaram por poucas e boas: a van disponibilizada pela Secretaria Estadual de Cultura quebrou na estrada, outra teve de ser providenciada e a chegada à cidade foi em cima da hora da cerimônia. A troca de roupas - elas se apresentam sempre com figurinos floridos e cheios de cor - teve de ser feita dentro do veículo.A emoção do prêmio compensou o aperto: ''Eu me senti como se tivesse ganhado o Oscar! Dei entrevista na hora e nem lembro o que falei'', conta dona Valdete, que começou a reunir as mulheres da comunidade ainda em 1989.Dona Seninha (Bernardina de Sena, de 62 anos) diz: ''A música mudou a minha vida. Fiquei muito mais feliz, com uma motivação nova. Consegui superar o problema da minha separação. Cantando, uma dá força à outra.'' No ano passado, as meninas ganharam o Prêmio Cultura Viva, do Ministério da Cultura (no valor de R$ 30 mil). O disco foi gravado graças a um patrocínio da Telemig Celular, obtido através da Lei de Patrocínio à Cultura de Minas.

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