Dominguinhos e a volta pro aconchego carioca

Hoje e amanhã no Rio, ele comemora 60 anos de carreira em espetáculo no qual mostra seus muitos sucessos e com a participação de nomes como Wagner Tiso

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2009 | 00h00

O show é instrumental, mas "quem cismar de cantar, que cante". O recado é de Dominguinhos, que celebra 60 anos de carreira hoje e amanhã, no Rio, com participações dos músicos Wagner Tiso, Gilson Peranzzetta, Yamandu Costa e Arthur Maia. No repertório, Eu Só Quero Um Xodó, De Volta Pro Aconchego, Isso Aqui Tá Bom Demais, Gostoso Demais, Lamento Sertanejo e Tenho Sede, sucessos de toda a vida, com parceiros como Anastácia, Nando Cordel e Gilberto Gil. Mas também temas desconhecidos - choros, baiões e xotes que ele compôs há 30 anos, sendo algumas homenagens, como a Jackson do Pandeiro e aos zabumbeiros Miudinho e Zé Pequeno. A retrospectiva será no teatro da Caixa Cultural, no centro. Faz parte do projeto Iluminado, de Zé Américo Bastos, o arranjador de discos de Elba Ramalho, principal voz feminina das canções de Dominguinhos. Na ocasião, serão gravados um CD e um DVD. A ideia vem de alguns anos, mas só foi viabilizada depois de fechado o patrocínio da Caixa Econômica Federal, via Lei Rouanet. O nome Iluminado foi Zé Américo quem deu. "Ele deve ter lá os motivos dele... Somos todos iluminados", diz o modesto Dominguinhos, com sua fala mansa e gentil.É curioso que ele esteja comemorando 60 anos de carreira, visto que só tem 68 de idade. É que o pernambucano José Domingos de Moraes vive grudado na sanfona desde a infância, em Garanhuns. Filho de Mestre Chicão, tocador e afinador de sanfona, começou com um modelo de oito baixos. Aos 8 anos, tudo começou. Integrante do trio Três Pinguins, com dois irmãos, conheceu Luiz Gonzaga, a quem passaria a ver como segundo pai até sua morte, há 20 anos. "Tocamos sem saber quem ele era. Gonzaga deu um endereço no Rio de Janeiro e um bolo de dinheiro ao meu pai e viemos para a cidade em 1954, um mês antes de Getúlio morrer. Não saí mais da cola dele", relembra ele. A cidade em questão não era a capital, mas a distante Nilópolis, na Baixada Fluminense. À época, o baião e outros ritmos nordestinos viviam uma fase áurea - até que viria a bossa nova, a jogar os ritmos regionais para escanteio e decretar a supremacia do violão. Gonzagão chamou-o ainda adolescente para tocar no disco Forró no Escuro (1958). Mudou seu nome artístico (era até então conhecido como Neném), e o apresentou como seu "verdadeiro sucessor" para quem quisesse ouvir - ele tinha outros afilhados artísticos, mas só a Dominguinhos foi conferida tal distinção. O tratamento era mesmo o de um pai para um filho. "Eu via mais ele do que o Gonzaguinha (dizem que este sentia ciúmes da proximidade de Dominguinhos com seu pai). Até hoje sou muito grato a ele. Sou o maior puxa-saco." Recentemente, participou com gosto dos tributos pelos 20 anos de sua morte. Dominguinhos também é figura central do documentário O Mistério de Santa Luzia, que estreia na sexta, com entrevistas de mestres da sanfona e homenagem ao Rei do Baião.Generoso, Dominguinhos não perde a oportunidade de citar outros artistas: o parceiro Gilberto Gil, e Gal Costa e Caetano Veloso, que "resgataram" a sonoridade da sanfona nos anos 70, além da amiga Elba Ramalho. "A sanfona estava obsoleta, ninguém queria ouvir falar. Era difícil ganhar dinheiro."Gonzagão o trouxe ao Rio, mas foi o trabalho (shows, gravações de discos, participações) que o manteve em São Paulo, cidade em que está radicado desde os anos 80. Segue trabalhando muito, mas só toca onde consegue chegar de carro ou ônibus - o medo de avião, que apareceu depois de uma apresentação com Gonzagão por volta de 1986 no Maranhão, o impede de ir mais longe.O público que conhece o Dominguinhos forrozeiro, que atravessou gerações agarrado à sua sanfona, vai poder prestar mais atenção também em suas melodias. No ano passado, ele fez temporada no Teatro Fecap, também com caráter de antologia. Quem viu recomenda. O teatro da Caixa Cultural fica na Av. Almirante Barroso, 25. Os shows são às 19h30 e o ingresso custa R$ 20 (meia a R$ 10).

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