Domador entre leões inspirados

Poesia Completa mostra por que a arte de José Paulo Paes incomoda a tradição

Fabrício Carpinejar, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Dez anos após sua morte, a poesia de José Paulo Paes continua viva. Por mais que desmentisse em vida, a responsabilidade é somente dele. Relembrando suas palavras: "Os poetas não vivem da piedade dos necrologistas: vivem da atenção dos leitores." Paes (1926-1998) diverge do hermetismo de boa parte do cenário brasileiro.Autor do pouco, tipógrafo (como seu avô) do verso. Encaixava as palavras mais do que costurava, como um crítico cultural, um debochado político, um espevitador incansável dos costumes. Nunca menosprezou a comunicação lírica, suas ideias vinham com legibilidade garrafal, para serem bebidas no primeiro contato. Aproximou-se incrivelmente do público, tanto em seus artigos como em sua lírica e literatura infanto-juvenil.Destoa também das correntes catárticas, caudalosas, nerudianas. Das páginas chorosas, copiosas, que dependem de um prendedor e um varal para secar. Não foi adepto do sentimentalismo biográfico. Atrás das cortinas, longe do centro do palco, reservando-se a condição de narrador do que a de personagem. Seus episódios familiares são raros e apenas servem a uma observação aprofundada dos dramas e desventuras filiais. Optou por ser um domador num mundo cheio de leões inspirados. Articulador do mínimo, tradutor inveterado do grego, representou um símbolo de honestidade intelectual. Sem panelas, sem tribos, com a solidão de tingir uma letra depois da outra.Com o lançamento pela Companhia das Letras de seus ensaios Armazém Literário, e de sua Poesia Completa, encontram-se os motivos de sua permanência incômoda dentro de nossa tradição.Sua virtude inicial é a discrição. Pensava a literatura como um todo, abrindo-se a compreensão de um sistema literário, como em sua investigação do pobre-diabo na nossa literatura (Nazazieno de Os Ratos, de Dyonélio Machado), uma espécie de refração aos romances proletários. O herói fracassado sinalizava a separação irrecuperável e sadia entre artista e o Estado.Portanto, não modelava suas teses para explicar a própria poética, como a maioria de seus contemporâneos costuma fazer. Ele não usou a crítica para legitimar seu percurso criativo. Tampouco empregou outros nomes para validar sua poesia de mais de cinco décadas, que começa com a publicação de Aluno, em 1947.Seus ensaios perseguem uma idéia de provocação, incluir quem está excluído e perceber o que está à margem. Daí a preciosidade da reflexão sobre o estilo pornográfico de Glauco Mattoso, impondo seu refinamento diante dos estereótipos de desorientação e desinformação creditados equivocadamente ao movimento marginal. Temas chulos, sim, mas com toda a alta cultura satírica e erótica, digna de Aretino e Safo de Lesbos.Pena que o Armazém Literário não insere artigos sobre escritores que permanecem resguardados nas fronteiras regionais, como Armindo Trevisan e Flávio Luis Ferrarini, ambos gaúchos, e que foram estudados na obra Os Perigos da Poesia. Seria mais uma oportunidade de frisar sua condição de pensador livre e contrário ao establishment editorial. A seleta inclinou-se a reunir pontos de vista mais panorâmicos e menos circunstanciais. De qualquer modo, há uma visada corajosa em defesa da religiosidade de Jorge de Lima e da bagunça transcendente de Murilo Mendes. Dois poetas - reitero - que nada têm em comum com a poesia de José Paulo Paes. O crítico paulista caracteriza Invenção de Orfeu, de Lima, como um magma verbal. Se alguém o aponta como um fracasso, contextualiza que é "um grandioso e desafiante malogro que convida à perene visitação".A segunda qualidade é sua arte de experimentar. Talvez exercendo um duplo-emprego, revitalizando na escritura sua condição alquímica de farmacêutico. Mistura reagentes, propõe soluções, atravessa diferentes movimentos e tubos de ensaios para equacionar a calidez de sua voz. Não esconde as influências, efetua homenagens a Mário e Oswald de Andrade, Drummond e Augusto de Campos. O Aluno é drummondiano até a medula; Novas Cartas Chilenas é uma sátira a Tomás Antonio Gonzaga, Anatomia flerta com o movimento concretista e o poema-piada.O autor que afamou a cidade de Taquaritinga (SP) conversa ombro a ombro com seus contemporâneos, recusando a submissão e o tráfego de simples emulador. Preconiza igualmente fórmulas. Epigramas, de 1958, pode ser entendido como um alicerce espiritual de Museu de Tudo, de João Cabral, de 1975, com textos dissecando figuras intelectuais. O terceiro ingrediente invejável é a modéstia, ampliada pela autocrítica permanente. Paes não se elogia, não entra na complacência e na vitimização. É mordaz consigo e com os outros. Desperta confiança pela objetividade carismática. Não perde a consciência da finitude e de sua estatura provisória. Da sua falsa neutralidade, aceita o ridículo de estar se despindo e se aceitando.Um exemplo contundente é o poema que abre A Poesia Está Morta, Mas Juro Que Não Fui Eu, em que confessa que copiou, com diligência, vários e vários escritores até que - em desespero de causa - chegou a se imitar.A brevidade de seus versos tranca a risada no meio. Poeta que ri sério, deixando a palavra gargalhar no lugar da boca. Dono de um humor extremista, escasso na poética brasileira, que vem temperado com nostalgia e uma visão lúdica da intimidade.Ironia que é o eixo de sua trajetória. Tira um sarro inclusive de sua geração 45 (inofensiva, apesar do calibre de arma de fogo) e não poupa a malta de conterrâneos ambiciosos:"Fica na minha sombra Não te salientes Que quando eu ganhar o Prêmio Nobel Te dou um pedaço"(Socráticas, 2001)Em Prosa Seguidas de Odes Mínimas, Paes atinge seu grande momento lírico, revivendo pai, avô e os loucos da rua, além de tecer fotografias de ouvido de seus utensílios pessoais como a bengala, o alfinete, o espelho e os óculos (realiza na poesia o que J.J. Veiga empreendeu nos contos de Objetos Turbulentos). A meditação sobre a ausência de sua perna esquerda é umas das mais destacadas demonstrações de distanciamento comovente de nossa língua. Retrata a evolução do pensamento de um amputado, desde o desespero à aceitação sarcástica do sacrifício."Nenhuma perna é eterna", diz, com serenidade filosófica.José Paulo Paes caminhava com as mãos. Não buscava chamar atenção do poeta, esse ser tão aéreo e frugal, mas de sua poesia, tão constante e particular. Imortalizou o efêmero. Fabrício Carpinejar é escritor e jornalista, autor de Canalha!, entre outrosPoesia CompletaJosé Paulo PaesCompanhia das Letras512 págs., R$ 59

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