Dois livros para lembrar o ''quase'' perfeito J. Carlos

Em um deles, O Vidente Míope, Cássio Loredano revela um ''deslize'' do artista

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2008 | 00h00

A Semana de Arte Moderna, a reformulação urbanística do Rio, o carnaval, o futebol, a intrincada política nacional. Nada escapou do traço e da leitura crítica do chargista J. Carlos (1884-1950), considerado o maior ilustrador brasileiro de todos os tempos, nos agitados anos 20. Ou quase nada... Sua visão aguçada falhou ao não prever o acontecimento que seria o divisor de águas da época: a Revolução de 30, que pôs fim à chamada República Velha.Desse ''deslize'' vem o título do novo livro da série que se dedica à vasta obra de J. Carlos: O Vidente Míope - J. Carlos n''O Malho (1922-1930), da editora Folha Seca, que será lançado hoje, no Paço Imperial, no Rio. Organizada pelo caricaturista Cássio Loredano, colaborador do Estado, a publicação, com textos do historiador Luiz Antonio Simas, traz deliciosas ilustrações feitas para a revista.Os períodos anterior e posterior ao abarcado por O Vidente Míope já haviam sido cobertos por outros livros idealizados por Loredano. De 1902 a 1921, o workaholic J. Carlos se dedicou, principalmente, à revista Careta; de 1930 a 1950, seus desenhos saíram na Cruzeiro.''Faltava esse miolo. Estava tudo na Biblioteca Nacional, se deteriorando'', conta Loredano. ''J. Carlos tinha faro para observar a cena política, mas errou feio ao não prever a revolução. Era contra Getúlio e O Malho acabou empastelado. Na casa do filho dele, em Petrópolis, tem tudo dele, menos O Malho. Acho que J. Carlos jogou fora.'' Em O Vidente Míope estão 306 dos cerca de 1.200 desenhos feitos para a revista.O J. Carlos designer e diagramador é exaltado noutro lançamento: O Desenhista Invisível, da designer Julieta Sobral . O volume, com capas e páginas d''O Malho e da revista Para Todos..., mostra por que ele é um dos maiores representantes do estilo art déco em sua área. ''Em plena década de 20, J. Carlos fazia coisas nunca vistas na Europa ou EUA. Era totalmente vanguarda'', diz Julieta. ''É impressionante a sua liberdade. Fazia experimentações, mas até onde o leitor pudesse entender.'' Professora da PUC-Rio, ela trabalha J. Carlos em sala de aula. Os alunos ficam encantados.

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