Dois filmes para enterrar a era Bush

Documentários com denúncias sobre abusos na política externa dos Estados Unidos são lançados simultaneamente

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2009 | 00h00

Os documentários Um Táxi para a Escuridão, de Alex Gibney, e Novo Século Americano, de Massimo Mazzucco, foram lançados ao mesmo tempo nos cinemas brasileiros, sob um rótulo emblemático - I Love War. Eu amo a guerra. A alusão óbvia é a George Bush, que saiu de cena na semana passada para dar espaço àquele que os americanos (e o mundo) esperam seja seu antípoda: Barack Obama. São filmes sobre os desmandos da política externa norte-americana em sua versão mais recente, com denúncias de torturas, estratagemas pouco éticos e complôs. Em termos cinematográficos são muito diferentes. Veja os trailers dos documentários Um Táxi para a Escuridão, ganhador do Oscar de documentário em 2008, tem esse título porque parte da tortura e morte de um motorista de táxi afegão. Dilawar, um rapaz de 22 anos, transportava passageiros quando foi sequestrado e levado para a prisão. Sem ter qualquer culpa formada, foi torturado até a morte. O filme tenta, a partir desse caso particular, demonstrar como a tortura se tornou prática disseminada durante a era Bush nas prisões de Bagram, Guantánamo e Abu Ghraib - sob esse tema foi lançado, recentemente, outro documentário impressionante chamado Procedimento Operacional Padrão. Acusações sempre negadas pelo governo e por altos escalões militares, mas admitidas quando, recém-empossado, Obama determinou o fechamento de Guantánamo (no prazo de um ano) e proibiu a tortura em interrogatório de acusados de atos terroristas. Não se proíbe o que não se pratica. Logo, a determinação de Obama equivale a uma acusação ao governo anterior.Táxi não ganhou o Oscar à toa. Seu poder de convencimento (assim como o de Procedimento Operacional Padrão) vem das entrevistas com envolvidos em crimes de guerra. Traz também a voz de algumas vítimas de maus-tratos em prisões norte-americanas. Há, nesses filmes, a impressão de um sentimento de culpa difuso, que se expressa como necessidade de purgá-lo diante da câmera. São filmes feitos por cineastas bem-intencionados, contrários ao caminho que seu país tomou depois do 11 de Setembro. Tiveram sua eficácia política no momento, ao se tornarem veículo do repúdio à política de guerra total de Bush. E funcionarão como documentos para o futuro, quando essa época tiver de ser evocada pelos historiadores.Esse tom de denúncia faz a força de Um Táxi para a Escuridão (e também dos filmes que a ele se assemelham) e é também seu limite. Além da justa indignação moral, não parecem talhados para ir além da condenação. Fica-se num subtexto em que esses atos significam o desvario de um sistema (e de um país) que se perdeu e tem de retornar ao eixo, à sua natureza "intrinsecamente boa". Sobra-lhes a força de desaprovação, sentimento partilhado por toda a parte civilizada da comunidade humana, mas falta-lhe a análise política e histórica. Tem-se o "como" mas não o "porquê".Já O Novo Século Americano, com toda a sua precariedade e fragilidade conceitual, parece querer ir adiante. Narrado pelo ator Paulo Betti em sua versão brasileira, o filme do italiano Massimo Mazzucco tenta entender os desmandos da era Bush como fenômenos decorrentes de algo mais amplo - a tentativa de uma política de domínio global de grupos neoconservadores (os "neocon" americanos) com forte influência no governo. Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz são dois dos mais notórios entre eles. De acordo com o filme, inspirados pelas ideias de Leo Strauss (1899-1973), os neocons procuram sempre eleger algum inimigo, alguma ameaça externa, para justificar um ato de ataque dos Estados Unidos.Aliás, o filme vai além, ou aquém, da era contemporânea e mesmo do passado mais recente. De acordo com essa teoria, o 11 de Setembro assemelha-se muito a Pearl Harbour, mas a eleição de pretextos para a agressão teria já sido usada na guerra contra a Espanha no século 19 e na entrada americana na 1ª Guerra Mundial, de 1914. Arma-se aquilo que seria um ataque a alvos americanos. Cria-se assim a indignação pública e as condições políticas para o engajamento em nova guerra. A prática obedeceria à lógica de ocupação de territórios em vistas da hegemonia mundial. Em especial, aqueles território em cujo subsolo existem reservas de petróleo.Dessa forma, e nesse raciocínio, Bin Laden e os atentados do 11 de Setembro seriam apenas instrumentos de uma velha guerra de ocupação travada pelos Estados Unidos. O filme usa material de arquivo para ir empilhando seus argumentos em favor dessa tese. E, como toda teoria conspiratória, não deixa muita margem para dúvida. Todos os passos da demonstração parecem assentados em uma lógica implacável. O que não quer dizer que seja verdadeira, pois, como se sabe, até mesmo o pensamento delirante tem o seu rigor interno.Sobra uma conclusão estranha do conjunto de fatos alinhados pelo filme: pode-se questionar o mosaico extremamente coerente (coerente demais, na verdade) que ele compõe. Mas fica mais difícil duvidar da veracidade de cada fato isolado. Não precisamos supor que foram os próprio norte-americanos que jogaram os aviões sobre o World Trade Center para admitir que o país alimenta um propósito de dominação mundial. E que esse propósito, que talvez oscile entre a força bruta e o soft power anunciado por Obama, não foi extinto com o fim da era Bush.

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