Dois atores, duas cadeiras e a plateia

Em cartaz no Rio com ingressos esgotados, In On It intriga e emociona o público, que acaba virando um terceiro personagem

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

04 de junho de 2009 | 00h00

Amor, solidão, paixão, medo, alegria, apatia - são algumas das sensações vividas pelas personagens de In On It, peça que vem emocionando o público carioca há dois meses, dirigida por Enrique Diaz e encenada por Emilio de Mello e Fernando Eiras. A temporada vai até o dia 28 e já não há mais ingressos desde o meio de maio. "A gente percebe claramente que a peça provoca empatia. A plateia existe como personagem. O espetáculo é interativo sem que o público entre, propriamente", diz Emilio, parceiro antigo dos companheiros de empreitada.Enrique Diaz conheceu In On It, escrita em 2001 pelo premiado dramaturgo canadense Daniel MacIvor, praticamente um desconhecido no Brasil, quando assistiu a uma montagem em Nova York. Na(s) história(s) de "Esse aqui" e "Aquele ali" (as personagens principais não têm nome ou sobrenome) reconheceu "alguma coisa incompleta" que o intrigou - e que também tem incitado a curiosidade dos espectadores da versão brasileira, com tradução (muito elogiada pela crítica) de Daniele Ávila."Ainda não sei se consegui destrinchar tudo o que se passa, mas não duvidei um só instante do que aconteceu na minha frente", escreveu o documentarista João Moreira Salles, depois de assisti-la pela segunda vez. "Fiquei absolutamente encantado com a peça. Fui do riso às lágrimas e de volta ao riso espontaneamente, sem perceber", testemunhou Rodrigo Santoro, que foi conferir logo que estreou.De fato, a plateia, que já começa a estranhar o espetáculo pelo título, que à primeira vista não quer dizer nada, não entende tudo sobre as trajetórias do homem que escreve uma peça, dos amantes que assistem ao fim da história de sua relação, e dos narradores. São diferentes camadas, muitas lacunas, perguntas, costuras, incômodos. Mistério."Uma amiga me disse: ?Eu entendi o que eu suportei?", conta Fernando, que, em vários momentos do espetáculo, chora. Convidado, Emilio deu seu "sim" ao diretor mesmo antes de ter lido o texto até o fim. Mais tarde, soube que o mesmo acontecera com o amigo. "É um texto escrito para o ator. A gente não cortou nem uma linha", lembra Emilio, que, como Fernando, quer viajar muito com a peça.Os ensaios duraram seis semanas, tempo em que os próprios atores penaram para esclarecer os três níveis da narrativa. Cenário - duas cadeiras num palco vazio, entre paredes desnudas - e figurino são bem simples; a mudança de plano é pontuada pela luz (de Maneco Quinderé). A metalinguagem se faz presente o tempo todo."Se você assistir, também já fez o espetáculo. A gente convida a plateia a se atirar; ela tem de estar viva. Se quiser descansar, perde o bonde. Falamos de muitas coisas invisíveis", completa Fernando, que, em determinado ponto, pede ajuda aos presentes para escolher o nome do médico que atende um doente desenganado, um de seus personagens (são dez no total). In On It quer dizer estar por dentro de alguma coisa. "O título parece sugerir uma charada", diz a tradutora. O público vai para casa sem todas as respostas, mas surpreendido e instigado. A peça está em cartaz no Teatro Oi Futuro (Rua 2 de Dezembro, 63, Flamengo).

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