Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Dois artistas marcados pela retomada da pintura em diferentes épocas expõem em galeria de SP

Fábio Miguez, 56, e Bruno Dunley, 34, revelam afinidades e referências próximas, apesar da idade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

23 Junho 2018 | 06h00

Dois artistas marcados pela retomada da pintura em diferentes épocas – nos anos 1980 e 2000 – abrem neste sábado, 23, mostras individuais na Galeria Nara Roesler: Fábio Miguez, 56, e Bruno Dunley, 34. O primeiro começou sua carreira nos anos 1980 como integrante do histórico grupo Casa 7, projetado na Bienal de São Paulo de 1985. O segundo fez parte do grupo 200e8, que lançou artistas de talento como Marina Rheingantz e Rodrigo Bivar, entre outros, todos comprometidos com a volta da pintura no século 21. A exposição de Fábio Miguez chama-se muito apropriadamente Fragmentos do Real (Atalhos). A mostra de Dunley tem o título de uma das telas da exposição, No Meio (de 2016).

O Estado reuniu os dois pintores para uma conversa sobre as diferentes experiências de cada um com o contexto da época em que começaram suas carreiras e a interação entre artistas de duas gerações distintas. Miguez começou a pintar em plena ebulição da onda neoexpressionista, convivendo com o advento da transvanguarda italiana e os “novos selvagens” alemães, nos anos 1980. Resposta à ressaca da arte conceitual dos anos 1970 e ao excesso de racionalismo que então dominava o panorama artístico, o neoxpressionismo trouxe uma figuração ruidosa e um cromatismo libertário em telas de grandes dimensões.

A nova exposição de Fábio Miguez, com 44 pinturas, vai na contramão de suas origens. Hoje distante do repertório e da mitologia neoexpressionista, ele exibe na mostra telas de pequenas dimensões que prestam tributo tanto a mestres da arte construtiva – Volpi, entre eles – como do pré-Renascimento (Masaccio e Piero della Francesca, entre outros pintores do Quattrocento italiano).

Já Bruno Dunley, que no início deste ano lançou seu primeiro livro e realizou sua primeira individual em Nova York, mostra telas de grandes dimensões, pintadas entre 2015 e este ano. Ainda que não se possa concluir que o uso de um cromatismo forte nesses trabalhos e o gigantismo das pinturas resultem de uma nova aproximação com a estética neoexpressionista ou, retrocedendo um pouco mais, ao expressionismo abstrato norte-americano, é certo que as novas obras fazem o percurso inverso ao de Miguez.

As pinturas mais antigas de Dunley (entre 2009 e 2010) já tinham cores estridentes (especialmente o amarelo), mas tendiam ao monocromo. A questão da expressividade preocupava o pintor, que considerava o vocabulário de cores rebaixadas pouco desafiador. “Minha geração é a primeira exposta à hiperinformação, então busquei fugir de imagens esquemáticas, descolando do discurso moderno da busca da pureza.” Dunley diz que não está “atrás de um cânone ou dogma, mas de uma energia violenta como a vida”, que ele vê impressa nas pinturas de Jorge Guinle e Iberê Camargo, por exemplo.

Mais apaziguado com essa questão canônica, Fábio Miguez justifica o título Atalhos de sua mostra como uma recomposição do repertório da história da pintura em fragmentos – ele “recorta’ uma fachada de Volpi e a desdobra num jogo de planos por seis pequenas telas, transformando o motivo de um outro artista num tema seu, de natureza combinatória, oferecendo uma nova imagem para uma velha história – e a “casinha” de Masaccio na foto reproduzida nesta página evidencia como o uso da perspectiva linear na modernidade difere das propostas do Quattrocento italiano.

“Meu mundo foi construído muito intuitivamente, mas, no fundo, todos da minha geração olhávamos para os pré-renascentistas”, observa Miguez. “Acabamos caindo de joelhos diante da capela de Scrovegni, de Giotto, como fez Volpi”, conclui, não esquecendo de mencionar o quanto Mira Schendel foi importante para a geração dos anos 1980. “Basta ver as pinturas da série Varais, que estão na exposição, para constatar isso”, aponta.

Bruno Dunley, que foi aluno de Paulo Pasta, sem diminuir a importância que tais nomes tiveram sobre os pintores mais jovens, revela que seu olhar convergiu para artistas de outra tendência. “Passei a olhar a pintura dos ‘novos selvagens alemães’, especialmente Polke e Baselitz”. Isso não dificultou a interlocução com pintores da Geração 80. “Temos conversas intermináveis, gostamos dos mesmos pintores e nos respeitamos muito”, finaliza Miguez.

FÁBIO MIGUEZ ('ATALHOS') E BRUNO DUNLEY ('NO MEIO')

Galeria Nara Roesler. Av. Europa, 655, tel. 2039-5454. 2ª a 6ª, 10h/19h; sáb., 11h/15h. Até 11/8. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.