Do cabaré à voz da diva black power

Canções de Arnold Schoenberg ganham enfim versão de referência na interpretação da soprano Measha Brueggergosman

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Os mais velhos dirão que ela é uma perfeita raylette (as generosas black singers que faziam os backing vocals de Ray Charles nos anos 50 e 60); para os mais novos, não ficaria mal como coadjuvante de algum rapper famoso tipo Eminem ou Public Enemy. Os mais revolucionários a apontariam como modelo físico ideal de parceira de Malcolm X, o pantera negra que liderou os negros nos movimentos dos anos 60 nos EUA. Pois esta imensa e arredondada cabeleira deve ser, de fato, um disfarce. Pasmem. Ela é cantora lírica, e soprano das boas. Foi ''''adotada'''' como mais nova revelação da Deutsche Grammophon, que está apostando em seu carisma e em sua voz tanto quanto investiu na faxineira do Kirov que virou a diva lírica do momento, a belíssima russa Anna Netrebko (que, por sinal, acaba de ser escolhida como artista do ano pelo vetusto anuário Musical America).Chama-se Measha Brueggergosman e seu sobrenome é estrambótico o suficiente para que ela ensine, em áudio no seu site (www.measha.org), como se pronuncia. Mas é simples: ela juntou o seu ao sobrenome do marido. Daí o Brueggergosman. Aos 30 anos, só tem duas gravações comerciais anteriores, realizadas em 2005 e 2006, para o selo canadense CBC. Em um, canta as Nuits d''''Eté de Berlioz; no outro, interpreta os norte-americanos Aaron Copland e Samuel Barber. A campanha promocional da DG foi orquestrada para levá-la rapidamente ao estrelato. Agora, seu CD de estréia na nova gravadora, Surprise, tem lançamento simultâneo no mercado internacional e no Brasil. Sim, você leu certo. É o milagre do patrocínio com as bênçãos da Lei Rouanet. Porque uma empresa decidiu patrocinar duas apresentações de Measha em São Paulo em dezembro (Teatro Alfa, dia 6) e Rio (Sala Cecília Meirelles, dia 10), temos o privilégio de ver nas lojas seu CD em real time com o exterior. Chique, não?Mas fechemos o saco de maldades. Vamos ao lado bom. Além da portentosa cabeleira black power anos 60, Measha exibe voz poderosa, lindo timbre, afinação irretocável e gosto insuspeitado por repertórios diferentes. Tão diferentes e ao mesmo tão acessíveis que parecem ter saído da cabecinha de algum raro marqueteiro mais afeito ao universo erudito. É um programa ao mesmo tempo bom e com belas chances de comercialização até no Brasil. Foca no universo sempre atraente das ''''cabaret songs'''' que rememoram os sedutores anos 20 da Berlim de Weimar, pré-nazismo. Aquele foi, de fato, um momento mágico, em que a alta e a baixa cultura romperam rótulos. Nas primeiras quatro décadas do século 20, praticamente cada esquina berlinense abrigava um cabaré onde se misturavam música, dança, poesia, esquetes dramáticos e/ou cômicos. O critério era um só: qualidade.É este o clima que Surprise - de fato, uma surpresa positiva - busca reproduzir. Felizmente, ao menos uma vez abandona-se a eterna estratégia de marketing de enfileirar grandes árias líricas com as quais cada nova voz tenta firmar-se. E mesmo no universo das cabaret songs Measha inova, ao descartar os sempre repetidos Bertolt Brecht e seus parceiros Kurt Weill e Hanns Eisler. Milagre. Tem até estréia mundial. Os compositores chamam-se Arnold Schoenberg, Erik Satie e o norte-americano contemporâneo William Bolcom. A última coisa que se poderia esperar do autor de Pierrot Lunaire seriam canções de cabaré; o segundo, ''''enfant terrible'''' da Paris do início do século 20, até que se encaixa no perfil; e o terceiro, Bolcom, parece ter assumido numa mesa branca o espírito de Leonard Bernstein num delicioso ciclo de sete canções que aqui recebem suas primeiras gravações mundiais.Na verdade, estou sendo injusto com Bolcom. Ele estudou com Darius Milhaud na Califórnia e depois com Olivier Messiaen em Paris, mas apaixonou-se mesmo pelo ragtime. Hoje, aos 69 anos, Bolcom alimenta igual fanatismo pela Broadway e pelos palcos líricos, não admite muros entre popular e erudito. Tem uma bela veia para melodias cativantes e sutilezas harmônicas dignas de um Bernstein ou de um Copland. Estas canções feitas sobre versos de Arnold Weinstein são irresistíveis em swing e refinamento criativo. São, claro, tonais até a medula. Mas Bolcom não é Bernstein. Das sete, certamente apenas uma poderia levar a assinatura do segundo sem susto: Amor. É uma autêntica gema. Bolcom, aliás, mantém há três décadas um duo com sua mulher, a cantora Joan Morris, onde praticam de ragtime às canções da Broadway. Em suma, gravita em torno das ''''cabaret songs''''. Daí a adequação e interesse de sua produção. Portanto, esqueça que são meros pastiches dos anos 50; deixe de lado estas mesquinharias e curta um momento brilhante de Bolcom. Ele, aliás, também orquestra com admirável competência Je te Veux, uma das cinco canções de Erik Satie originais para voz e piano (Daphénéo recebe orquestração de Robert Caby).E, finalmente, o inacreditável. Na virada dos séculos 19/20, o vienense Arnold Schoenberg tentou a sorte em Berlim. Bem antes, portanto, da revolução dodecafônica que promoveria anos mais tarde. Ele foi ''''kappelmeister'''' do primeiro cabaré em data, o lendário Motley Theater, também conhecido como Überbrettl, que funcionou em Berlim na célebre Alexanderplatz pouco mais de um ano, entre janeiro de 1901 e maio de 1902. O ''''kappelmeister'''' aí de cima não foi brincadeirinha. O dono do Überbrettl chamava-se Ernst von Wolsogen. Era escritor e foi o responsável pelo libreto de Feuersnot, de Richard Strauss. Foi sua a idéia de abrir um local onde se pudesse misturar canções, poesias, esquetes teatrais curtos, entre outras performances artísticas. ''''Em Berlim'''', escreve Dominique Jameux em A Escola de Viena, ''''a música ligeira não precisava renunciar à qualidade, à inovação, à sátira e à ironia''''. Schoenberg não foi contratado como compositor, mas como kappelmeister mesmo, explica Jameux. Ele era ''''responsável por todo o material artístico que subia ao palco: produção e transcrição, quando fosse o caso, do repertório de canções trazidas por uns e outros''''. Ele fora contratado quando a trupe de Wolzogen passou por Viena e Schoenberg mostrou-lhe algumas canções de cabaré. Tinha mulher e filho, precisava ganhar a vida - e as coisas não andavam fáceis na capital mundial da valsa. Measha gravou as oito canções em Surprise, mas apenas uma delas, Nachtwandler, foi levada à cena no cabaré da Alexanderplatz. A instrumentação é deliciosa: piccolo, trompete, caixa-clara e piano. Measha a valoriza ao máximo. Um triunfo.Schoenberg escolheu os oito poemas numa coletânea intitulada Canções Alemãs, publicada em 1900 por Bierbaum, reunindo versos de Frank Wedeking, Hugo Salus, Gustav Hochstetter, Colly e Gustav Falke, entre outros. Nachtwandler tem texto de Falke, que descreve as escapadas noturnas do narrador, pontuadas pela bateria e o trompete. Galathea, de Wedeking, conta a história de um sujeito acariciando uma jovem. Ele quer beijar seus cabelos, suas mãos, nariz, pés - tudo, menos a boca. A primeira, Gigerlette, sobre poema de Bierbaum: Fr?ulein Gigerlette, vestida de de branco, convida alguém para um chá num salão vermelho. Ao final, ambos saem para em algum belo lugar no campo, numa carruagem conduzida por ninguém menos do que Cupido.Dominique Jameux, profundo conhecedor da vida e obra de Schoenberg adverte: ''''Ao contrário do que já se escreveu aqui e ali, não se deve enxergar neste ciclo uma prefiguração de Pierrot Lunaire''''. Enfim, as Überbrettl-Lieder são apenas o que são: belas e cativantes melodias em instrumentações sempre interessantes. Música de cabaré de alta qualidade. O ciclo já foi gravado algumas vezes e diversas divas conhecidas interpretaram canções isoladas. Measha Brueggerbosman se impõe como primeira escolha. Pena que em suas apresentações no Brasil os organizadores tenham descartado justamente a parte mais interessante deste trabalho - as canções de Bolcom e Schoenberg - em troca do burocraticamente previsível: Satie, Turina, Chausson, três inevitáveis Gershwin e dois obrigatórios brasileiros em sinal de cortesia à platéia (Ponteio, de Santoro, e as Bachianas nº 5, do Villa). Isso é pavor do novo. De novo, pena. Sobretudo no caso de Schoenberg. Afinal, é um raríssimo exemplo de obra sua que pode ser assobiada sem problemas. E com prazer.

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