Diversas tonalidades da prosa latina

Coletânea do peruano Julio Ribeyro é também o inventário das mudanças sociais do continente nos últimos 50 anos

Vinicius Jatobá, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Talvez além da arte do conto somente a compacta e precisa escrita teatral demande mais talento. Na geografia vasta que é o corpo de todo romance, um ponto mal cozido torna-se uma mancha, um nó discreto, no rendado suntuoso. O conto não perdoa. Não há zona cinza, e o remendo nele é sempre pior que o soneto. Por esse motivo é felicidade estar diante de Julio Ramón Ribeyro: Só para Fumantes (Cosac Naify, 304 págs., R$ 45; tradução de Laura Hosiasson) é uma antologia obrigatória para todos os amantes da arte da narrativa curta. Escolhidos de um opus de quase uma centena de relatos, os treze textos da bela edição traçam um panorama generoso de um itinerário magistral e discreto. Magistral, porque a naturalidade com que as narrativas são encaminhadas somente o domínio total do ofício podem imprimir. Discreto, porque o peruano Julio Ramón Ribeyro é tão desconhecido que encabula até a própria ignorância geral quanto ao seu legado. Atravessando diversas classes sociais, os contos reunidos trazem, da sociedade peruana, um olhar complementar àquele do leitor dedicado dos romances de Vargas Llosa. Ler o tomo Só para Fumantes, com relatos que abarcam toda vida de Ribeyro, é fazer um passeio curioso pelas diversas tonalidades e intenções da prosa latino-americana. Dos contos mais abertamente políticos da juventude (Urubus Sem Penas e Ao Pé da Escarpa), aos experimentos mais humorísticos e surrealistas da meia idade (Ridder e o Pesa-papéis, Os Jacarandás e O Pó do Saber), culminando nos relatos francamente autobiográficos da maturidade (Só para Fumantes e Tia Clementina), ler Ribeyro é ler também o desencadeamento da literatura do continente: a prosa enquanto instrumento de mudança social dos anos 40, os lúdicos anos 60 da revolução cubana, ambiente que propiciou o espaço para abrigar a coda da mais extraordinária e experimental prosa latino-americana, e a ressaca ideológica dos anos 80 com sua imensa nostalgia e esgarçamento de sonhos e projetos, e inclusive a misteriosa dispersão de sua força criativa. É um livro que nos faz perguntar para onde foi a contagiante ambição estética e política da América Latina. A coleção Prosa do Observatório tem esse nó melancólico, e é de desejar que traga livros como Museo de la Novela de la Eterna, de Macedonio Fernández, El Acoso, de Alejo Carpentier, ou Los Adioses, de Juan Carlos Onetti, entre muitas outras novelas, para mostrar aos latino-americanos de expressão portuguesa a riqueza algo esquecida do continente, mostrando caminhos para amá-lo de novo.O conto Só para Fumantes é tão interessante que convida ao plágio. É o ponto máximo de uma forma de organizar a memória comum aos relatos de Ribeyro, que são manifestações do desejo obsessivo; mais até: a descrição e pesquisa do comportamento humano diante da conquista daquilo que se deseja. Um espelho se rompe e toda uma casa perde o sentido; uma mulher relembra tanto um professor universitário da sombra de outra mulher, que acaba a substituindo; esquiva-se com diversas artimanhas de lutar diretamente por algo que, quando chega o momento da posse, tem a belezeza, e até a presença, devastada pelo tempo; o doce se mantém doce apenas na lembrança; e um objeto amado arremessado na penumbra unirá duas culturas, dois continentes, e uma identidade, da forma mais absurda possível. As personagens de Ribeyro sofrem do esvaziamento de sentido que todo intenso desejo consumado possui. E se a morte é a conseqüência de manter o sentido perdido, é isso que o triste Só para Fumantes ensina. Conto da autodestruição, e da auto-afirmação, é um relato onde a personagem se afirma pelo vício continuado e progressivamente mortal de fumar. Cigarro após cigarro, melancólico, o narrador reconstrói sua vida pelos relatos e aventuras ao redor do seu vício obsessivo. O problema é que muitas vezes é a morte, sempre ela, que ameaça o conforto da lógica do cotidiano, do prazer miúdo que organiza os afetos, e é dessa crise e impasse que nasce a beleza do conto, e, com inúmeras variações, a beleza desse tomo saboroso e instigante.

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