Divas ativistas cantam jazz com mais orgulho

Mostra em São Paulo, a partir de 14 de maio, terá cantoras surpreendentes e tributo ao disco mais famoso do gênero

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

16 Março 2009 | 00h00

Em julho do ano passado, a cantora de jazz René Marie, de 54 anos, foi convidada para cantar o Hino Nacional norte-americano numa cerimônia pública em Denver. No entanto, em vez de cantar Star-Spangled Banner, o hino oficial, ela surpreendeu e cantou a música Lift Ev?ry Voice and Sing, de James Weldon Johnson, também conhecido como o Hino Nacional dos Negros da América (aríete dos movimentos negros e veladamente proibida desde os anos 1940). Foi um auê. O prefeito John Hickenlooper recebeu milhares de mensagens de protesto. No MySpace, um maluco redneck ameaçou René de morte se ela ousasse cantar aquilo de novo. Queriam que ela se desculpasse pela "heresia", mas René não recuou. "Um artista não precisa pedir desculpas por se expressar artisticamente." Natural da Virginia, discípula de Betty Carter e Dinah Washington, René Marie é uma das mais belas vozes do jazz na atualidade. Com uma história incrível: só estreou em disco aos 40 anos, em 1995, quando já estava com os filhos na faculdade e eles mesmos descobriram que a mãe era excepcional cantora disfarçada de dona de casa. Pois bem: René Marie é uma das divas estupefacientes escaladas para o melhor cast de um festival de jazz em anos recentes, o Bridgestone Music Festival, que terá sua segunda edição entre 14 e 16 de maio no Citibank Hall, em São Paulo (informações e ingressos pelo site www.bridgestonemusic.com.br). A outra grande diva no programa é Bettye LaVette, cuja história não é menos peculiar que a de René Marie. Amiga do presidente Barack Obama, Bettye é como se fosse uma Tina Turner com o fôlego intacto e um domínio visceral do R&B. Fera da música negra nos anos 1960, ficou anos fora de cena entre o fim dos anos 1970 e 1980. Nos anos 1990, não gravou quase nada, só fez shows ao vivo. Na posse de Obama, cantou A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke, acompanhada de Jon Bon Jovi. Outro hino ativista. Para completar, a diva da nova geração: a nigeriana Tokunbo Akinro, que forma com o saxofonista alemão Morten Klein o duo Tok Tok Tok, sensação do novo soul acústico. O festival fecha com chave de ouro: o baterista Jimmy Cobb, único sobrevivente da banda que gravou o disco mais célebre da história do jazz, Kind of Blue, de Miles Davis, refaz no palco os clássicos do álbum (lançado há 50 anos). Gravado com uma banda mítica (Miles, Coltrane, Bill Evans, Cannonball Adderley, Paul Chambers e Cobb), merece ter sua história melhor contada aqui. Aguardem. Programa 14 DE MAIO Robert Glasper Trio Miles Davis Kind of Blue @ 50 15 DE MAIO René Marie Quartet & Jeremy Pelt Miles Davis Kind of Blue @ 50 16 DE MAIO Tok Tok Tok Bettye LaVette & Quintet

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.