Diva desafinada

Marília Pêra estreia sexta-feira Gloriosa, musical em que interpreta uma soprano conhecida como a pior cantora do mundo

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2009 | 00h00

Marília Pêra repetiu sua rotina espartana para compor a protagonista do musical Gloriosa, que estreia sexta-feira, no Teatro Procópio Ferreira: tomou conhecimento de todas as canções que iria cantar, ensaiou durante um mês, fez preparação vocal até chegar o momento mais inusitado de sua carreira: aprender a desafinar. "Isso porque, no palco, interpreto uma cantora que não acertava uma única nota musical", explica a atriz. "Foi uma verdadeira desconstrução de minha voz." Ouça trecho da entrevista com MaríliaReconhecida pelo virtuosismo no canto e na interpretação, que a permitiu viver divas como Maria Callas, Marília Pêra vive agora outro papel inspirado em um personagem real, mas uma mulher cafona, que se vestia mal e cantava pior ainda e exibia uma bondade extrema: Florence Foster Jenkins (1868-1944), soprano americana que se tornou uma lenda em Nova York nos anos 1940 pela desafinação e falta de ritmo com que entoava peças clássicas de Mozart, Verdi e Strauss."Ela era um verdadeiro desastre em cena, provocando gargalhadas incontroláveis em quem a assistisse. Conta-se que Cole Porter e Noel Coward pagavam para vê-la. Ao mesmo tempo, Florence acreditou que tinha talento até quase o fim da vida", nota Marília, que há cinco anos é rondada pelo papel.Em 2004, quando fazia sucesso na pele de outro personagem real na peça Mademoiselle Chanel, ela foi consultada pelo diretor daquele espetáculo, Jorge Takla, para participar da versão nacional de Souvenir, peça do americano Stephen Temperley que traz um resumo da vida de Florence. "Eu não a conhecia e, antes de iniciar minha pesquisa, Jorge me comunicou que convidaria Bibi Ferreira para o papel", explica. "Assim, esqueci completamente dela."Na mesma época, os diretores e produtores Charles Möeller e Claudio Botelho também se interessaram por Souvenir. "Vimos na Broadway e imediatamente pensamos em montar com Marília", conta Möeller, que desistiu ao descobrir o interesse de Takla. "Logo depois, e por uma incrível coincidência, outros produtores, Sandro Chaim e Claudio Tizo, nos apresentaram Glorious!, que conta a mesma história, desta vez na versão inglesa e com uma outra visão, a do autor Peter Quilter. E demos sorte, porque se trata de um texto mais teatral, mais engraçado, um antimusical."Imediatamente, a dupla apresentou o desafio para a atriz que, estimulada, iniciou o processo de preparação. Gloriosa mostra os últimos dez anos de vida de Florence Foster Jenkins quando, rica e excêntrica, junta-se ao pianista Cosmé McMoon para formar uma dupla inseparável. "Ele precisava de um emprego e ela, de um músico. Logo, surgiu uma parceria também carinhosa, pois Cosmé a acompanhou até os últimos anos de sua vida", conta Marília.Filha de um banqueiro bem-sucedido, Florence tinha uma inquebrantável segurança de seu talento e dispunha-se a cantar as árias mais difíceis do repertório clássico. Comparava-se a sopranos de gabarito, como Frieda Hempel e Luisa Tetrazzini, e anualmente realizava um recital no Ritz no qual McMoon prudentemente impedia a presença da imprensa, temendo críticas desfavoráveis. "O dinheiro arrecadado, no entanto, era doado para instituições de caridade", conta Möeller que, ao lado de Botelho, acompanhou cuidadosamente a desconstrução vocal de Marília Pêra."Florence cantava errado em tons agudos", comenta a atriz. "E, como demorava para recuperar o fôlego, não conseguia controlar a respiração e perdia o ritmo, atropelando a orquestra." Marília conta que Möeller, responsável pela encenação enquanto Claudio Botelho cuida da direção musical, pedia que exagerasse no erro, para ressaltar a comicidade."Claro que eu sabia que só mesmo poucas atrizes, como Marília, são capazes de interpretar um tom acima sem parecer uma caricatura", observa o encenador. Florence deixou gravadas nove árias, hoje disponíveis em CD. Marília Pêra ouve as canções diariamente para detectar as falhas da americana. "Ela só acertava uma em quatro notas no agudo."Gloriosa apresenta dois momentos distintos. O início é cômico, com a excentricidade e a desafinação de Florence provocando gargalhadas. Logo, o drama, com as críticas que lhe apressaram a morte. "É difícil conter as lágrimas", acredita a atriz.ServiçoGloriosa. 105 min. 12 anos. Teatro Procópio Ferreira (670 lug.). R. Augusta, 2.823, 3083-4475. 5.ª e sáb., 21h; 6.ª, 21h30; dom., 18h. R$ 70/R$ 90. Até 2/8. Estreia 6.ª

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