Distribuidoras disputam o valioso legado dos mestres

Truffaut e Godard são os cineastas mais lembrados pelas empresas que produzem DVDs no País, mas nem todos os filmes são lançados em cópias de boa qualidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Godard disse um dia que tudo o que ele precisava num filme era uma pistola e uma garota. Hoje ele teria de dispensar a garota e ficar apenas com a pistola para combater a pirataria. É um dos diretores da nouvelle vague mais pirateados - tanto por cinéfilos como pequenos selos, que lançam seus clássicos a partir de originais importados (e critério de reprodução zero). Assim, é recomendável alugar uma cópia nas locadoras antes de entrar nas lojas especializadas e comprar seu DVD. De qualquer forma, a maior parte dos filmes que Godard rodou nos anos 1960 está disponível em boxes, assim como a obra de Truffaut, que foi lançada por duas distribuidoras, embora apenas uma com licença da MK2 francesa, a Versátil Home Vídeo, que lançou uma cópia irretocável de Os Incompreendidos.Os Incompreendidos dá início a uma série que acompanha o personagem Antoine Doinel da infância à idade adulta. Nesse filme inaugural, ele é autor de pequenos delitos para chamar a atenção da mãe e do padrasto. O lançamento da Versátil pode ser encontrado também numa caixa (Coleção Aventuras de Antoine Doinel) que reúne os cinco filmes sobre Doinel segundo a ordem cronológica dos acontecimentos de sua atribulada vida. Nos extras de Os Incompreendidos vem o média-metragem Antoine e Colette (1962), episódio do longa O Amor aos 20 Anos, revelando a primeira paixão do adolescente. Em Beijos Proibidos (1968), Doinel sai do quartel, erra por vários empregos e vive um romance com outra mulher. Em Domicílio Conjugal (1970), ele já está casado, mas sem emprego fixo e com um caso extraconjugal para infernizar sua vida. Em O Amor Em Fuga (1979), Doinel, aos 35 anos, divorcia-se da mulher e passa a reencontrar antigas namoradas, entre elas Colette.Essa relação conturbada com as mulheres é tema recorrente na obra de Truffaut, que tem outros títulos lançados pela Versátil, entre eles o mais popular de seus filmes, Jules e Jim (1962), sobre um triângulo amoroso formado pelo alemão Jules (Oskar Werner), o francês Jim (Henri Serre) e a impulsiva Catherine (Jeanne Moreau) na Paris da virada do século 20. Outros filmes pela distribuidora incluem os títulos As Duas Inglesas e o Amor (1971) e O Último Metrô (1980). Este ano a Versátil promete lançar A Sereia do Mississippi (1969), A Noiva Estava de Preto (1968) e O Homem Que Amava as Mulheres (1977).Godard está disponível basicamente em cópias da Continental e pelo selo Silver Screen, que acaba de lançar duas caixas com alguns de seus melhores filmes. O primeiro longa do diretor, Acossado (1959), ficou algum tempo fora de catálogo, mas deve voltar ao mercado ainda em fevereiro. Numa das caixas da Silver Screen estão reunidos O Pequeno Soldado (1963), sobre a guerra da independência da Argélia, Alphaville (1965), ficção sobre uma cidade dominada por um supercomputador, e Carmen (1983), sobre um grupo de jovens que assalta um banco para financiar a produção de um filme de um cineasta recluso (o próprio Godard). Um segundo pacote da Silver Screen traz Uma Mulher É Uma Mulher (1961), sobre uma dançarina de cabaré que deseja ter um filho, Masculino Feminino (1966), olhar antropológico sobre a juventude dos anos 1960, e Detetive (1985), homenagem aos policiais americanos e à própria nouvelle vague com dois detetives investigando uma morte misteriosa num hotel de Paris. Um filme incontornável na obra de Godard, O Demônio das 11 Horas (Pierrot le Fou, 1965) está disponível também por outro selo, Cult Filmes, além da edição da Silver Screen.A Europa Filmes lançou dois filmes de Godard, o já citado Alphaville e Tempo de Guerra (1967), manifesto antibélico sobre uma guerra num país imaginário. Outro grande diretor da nouvelle vague francesa, Eric Rohmer foi lembrado pela distribuidora, que lançou há dois anos a Coleção Eric Rohmer com boa parte da filmografia do diretor, 15 filmes indispensáveis, incluindo O Signo do Leão, que ele realizou justamente em 1959, ano zero da nouvelle vague.Os outros dois cineastas do núcleo-base do movimento francês, Claude Chabrol e Jacques Rivette, não tiveram a mesma sorte. Os filmes de Chabrol realizados nos anos 1950 e 1960 são raridades (o prestigiado selo Criterion lançou a integral de sua obra em várias caixas, nenhuma vendida a menos de US$ 150). Há uma edição rara de Os Primos, mas é preciso pesquisar na internet. Recentemente a Versátil lançou sua versão do clássico Madame Bovary, relativamente fácil de achar. Já Rivette é mais difícil. Só a Criterion americana para salvar os cinéfilos.

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