Discutir a relação, com inteligência e humor

Cinema brasileiro dá um toque brejeiro aos filmes de relacionamento, que costumam atrair especialmente os casais

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

No jargão do cinema, eles são conhecidos como "filmes DR". Filmes para (D)iscutir a (R)elação. Atraem em especial casais, uns jovens outros nem tanto, que desejam colocar em pauta seus conflitos, meio por procuração, vendo outros o fazendo na confortável distância da tela. Daí, provavelmente, seu sucesso de público, em especial na classe média, que tem tempo e ânimo para esse tipo de debate doméstico. Não por acaso, o maior êxito do cinema brasileiro contemporâneo é Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho, com quase 6 milhões de espectadores até agora. Certo, boa parte desse resultado pode ser creditado à dupla famosa da televisão, Tony Ramos e Gloria Pires, além da direção competente de Daniel Filho. Mas a ideia engenhosa também tem seu mérito: em tese, para entender o outro é preciso colocar-se em seu lugar. O filme toma a metáfora ao pé da letra, com a troca de corpos. De certa forma, essa situação impossível não deixa de ser uma atualização do mito grego de Tirésias, único ser que pôde provar o gozo sexual dos dois lados (90% de prazer para as mulheres, 10% para os homens, teria confidenciado a Zeus). Enfim, este ponto deixamos para os psicanalistas, mas a fantasia do gozo bissexual deve também jogar seu papel na repercussão desse tipo de história, mesmo que seja nas entrelinhas. Em todo caso, o cinema DR brasileiro não pode ser resumido a Se Eu Fosse Você, em suas duas versões. Outros cineastas têm procurado aproveitar esse filão. A diretora Sandra Werneck, por exemplo, fez dois - Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis. Também com atores da TV no elenco (Andréa Beltrão e Daniel Dantas no primeiro, Carolina Ferraz e Murilo Benício, no segundo), os filmes comentam, de maneira leve, os benefícios e também os conflitos gerados pela liberação dos costumes, em especial no âmbito sexual. As histórias, engenhosas, falam de casais que se unem, separam-se, conhecem outras pessoas, envolvem-se, reencontram-se, às vezes voltam a ficar juntos. Nada que pessoas reais, de certa faixa etária, não tenham conhecido por experiência própria, sendo, portanto, histórias críveis, que dão prazer ao serem reelaboradas no escurinho do cinema. Na chave da comédia mais rasgada de Se Eu Fosse Você 2, aparecem filmes como Sexo, Amor e Traição, de Jorge Fernandes, e Os Normais, de José Alvarenga Jr. No primeiro, o casal, interpretado por Malu Mader e Murilo Benício, vê a vida modorrenta revolucionada pela chegada de um tertius, Fábio Assumpção. No segundo, Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres) dão seguimento na tela grande às peripécias da série televisiva da Globo. O filme é dirigido por José Alvarenga Jr., que prepara uma continuação com estreia prevista para agosto. Mas é preciso dizer que nem Sandra Werneck, Daniel Filho, José Alvarenga ou Jorge Fernandes inventaram o gênero entre nós. Talvez o decano dos filmes DR brasileiros seja Domingos Oliveira, autor do magnífico e pioneiro Todas as Mulheres do Mundo (1966), com Paulo José como protagonista. Naquela época, anos 60, em que o tema político dominava a melhor produção nacional, Domingos ousava colocar em pauta uma antiga questão amorosa, e masculina: com tantas mulheres disponíveis neste vasto mundo de Deus, como decidir-se a ficar com uma só - mesmo que essa uma seja ninguém menos que... Leila Diniz. O filme trabalha, amorosamente, essa questão, desdobrada na produção seguinte, Edu Coração de Ouro (1967), com o mesmo Paulo José no papel principal. No cinema da Retomada e da pós-Retomada, Domingos tem voltado regularmente aos seus temas em títulos como Amores e Separações. São modernos, mostram casais abertos, vivendo sua liberdade na era pós-aids, e pagando o preço de suas opções. É cinema de veterano, feito com grande frescor porque expressão de uma alma livre. Aliás, essa maneira ligeira, alegre, e mesmo brejeira com que os filmes DR se ambientam entre nós pode muito bem resumir a contribuição brasileira ao gênero. Contribuição tanto mais original porque não faltou nem mesmo entre nós uma obra metacinematográfica sobre o assunto. Trata-se de Como Fazer um Filme de Amor, de José Roberto Torero, que procura colocar a nu (epa!) os clichês do gênero. Com ironia, mostrando que é possível discutir a relação sem perder as estribeiras, a inteligência e muito menos o humor.

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