Diretor diz que quis fazer um ''ensaio sobre a dúvida''

Homenagem ao centenário de morte de Machado, Capitu entra no ar no dia 9 de dezembro e tem cinco capítulos. É a segunda série do projeto Quadrante, de Luiz Fernando Carvalho, que leva a literatura brasileira para a TV e que começou com A Pedra do Reino, no ano passado. Como no caso da minissérie baseada na obra de Ariano Suassuna, a estética é não-naturalista. Antes de se iniciarem as gravações, foram três meses de preparação dos atores, o que incluiu palestras sobre o universo de Machado e conversas com um psicanalista e um historiador. A trama é dividida em duas fases, sendo a primeira até a ida de Bento para a faculdade de Direito e a segunda marcada pelo ciúme e a dúvida sobre a suposta traição de Capitu. A maior parte das cenas foi ambientada no prédio do Automóvel Clube, no centro do Rio, na mesma região da antiga Rua de Matacavalos, onde, no romance, morava Bentinho. Carvalho falou sobre Capitu por e-mail:Como você fez para transpor para a TV uma história permeada pela dúvida e a ambigüidade de caráter dos personagens?Estou trabalhando em cima da dúvida, que é um grande tema. Além disso, não acredito em adaptação, no sentido ortodoxo do termo, como injetar num romance novos personagens, palavras, tramas paralelas ou finais que não existem. Sou completamente contra esse tipo de assassinato. Em Capitu, não há uma única palavra ou vírgula que não seja de Machado. Procuro entrar no livro como um leitor e extrair uma resposta criativa a essa leitura. Por isso também optei por outro título, Capitu, onde a idéia de aproximação ficaria ainda mais clara, revelando assim não se tratar apenas de uma tentativa de transposição de um suporte para outro, mas sim de um diálogo com a obra original. E, por sua vez, nasce daí também uma outra tentativa: o diálogo com a personagem Capitu, que no próprio texto do Machado é tão enigmática. Portanto, essa minha aproximação com Machado é um ensaio sobre a dúvida, não absolvo Capitu e não a condeno. Acho que Capitu é um personagem que pertence ao mistério e pertence a essa interação de cada leitor, cada um vai decidir de acordo com suas coordenadas, se ela é ou não culpada, se a fruta já estava dentro da casca.Como descreveria a sua Capitu?Capitu, tão repleta de mistérios e enigmas, soava-me desde sempre como uma anunciação. No início, era uma borboleta. Saiu cedo do casulo para assumir sua forma exuberante de mulher. Colorida, refrescante, ondulante, alegre, adoravelmente maliciosa. Já adulta, traz consigo o espírito de uma esfinge. O Feminino que exala o perfume de seus labirintos por onde passa.

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