Dios no existe

Nós, neuróticos, acreditamos que umas férias e uma viagem "ao estrangeiro" são remédios contra a ansiedade - distúrbio provocado pelo mal que a vida contemporânea nos provoca e ensina que não basta um hard disk, é preciso ter memória RAM, back up, filtros de linha, pen drive, HD externo e reza brava, para não entrarmos em pânico a cada raio que parte o céu da tarde de verão.A viagem ao estrangeiro revigora. Voltamos renovados - renovamos o físico, a mente, o armário e nosso estoque de periféricos, perfumes e bebidas. Ela anestesia algumas neuroses, porém desperta outras, que já começam no embarque. Você viaja com a melhor roupa? O que adianta, se chegará ao destino amarrotado como um cigarro de bêbado debaixo da chuva?É um dos nossos aquele que coloca as roupas essenciais na mala de mão, prevenindo-se contra o sumiço da mala principal, que pode se rebelar ou ser sequestrada nos porões de um aeroporto e passar as férias em outro continente. Teste:1. Você amarra fitas coloridas ao redor da mala, para que não seja confundida na esteira de desembarque com a de outros malas que, sem criatividade, compraram na mesma liquidação? Lacra a mala com cadeados? Embrulha num plástico? Coloca um rastreador de GPS?2. Momento de mostrar o passaporte para a PF brasileira. Enquanto o agente checa os dados no computador, você teme pelas contravenções cometidas recentemente, como estacionar no ponto de ônibus, sonegar a consultoria sem recibo ou roubar emprestado o jornal do vizinho? Como um terrorista da Al-Qaeda, reza mantras sagrados para relaxar?3. Você leva anotado o telefone da embaixada brasileira, caso seja barrado pela imigração do país de destino? Quando perguntam se a viagem é de férias ou trabalho, você abre os braços e diz "Deus é testemunha que estou em férias"? Você cumprimenta o agente estrangeiro na língua local, ou finge ser um deficiente auditivo?4. Se for a um país de língua espanhola, você arrisca um portunhol esdrúxulo no hotel, ou fala no seu inglês esdrúxulo até com a camareira?5. Você aprende logo como se diz garfo, faca, colher, copo e guardanapo, ou passa a viagem fazendo mímicas e apontando para as mesas vizinhas, todas as vezes que se sentar em restaurantes? Você fala "eu quiero o cardápio" com sotaque do dublador de Chaves, ou leva um dicionário com frases importantes, como "a conta por favor"? Você pede ao garçom que descreva o prato do cardápio. Ele fala como se você morasse no bairro dele. Você pede para repetir, quer saber o que é cada tempero, ou fala contente "é isso mesmo que eu quiero", arriscando jantar a sobremesa? Você diz sim a tudo, tenta, a todo custo, arrancar dele um entendimento, ou apenas pergunta, com toda fleuma "do you speak english"?6. Seu relógio é acertado, ou você é daqueles que a todo tempo diz "no Brasil é cedo"?7. Você fica horas na estação de metrô, diante da bilheteria, examinando como se compra um bilhete, ou pergunta? Estuda o mapa do transporte metropolitano pendurado na parede, ou entra no primeiro trem que aparecer? Se entrar, você faz cara de turista acidental, ou finge ser mais um local, a caminho do trabalho? Pega um táxi? Pesquisa antes, para saber qual brazuca joga no time local e poder ter assunto com o taxista?8. Você faz o busão turístico, mesmo sabendo que ele custa 30 passagens de um ônibus comum? De chapéu?9. Você para em cada esquina para olhar seu mapa, ou o disfarça dentro de um jornal da cidade?10. Se você estiver no elevador do hotel, e turistas asiáticos entrarem, você finge falar corretamente a língua local, demonstrando quanto você é superior a eles, se comunica num inglês universal ou fala em bom português "desce"?11. Na volta, traz a camisa que identifica a cidade visitada? Desembarca com a camisa oficial da seleção brasileira? Fala português sem parar, para tirar o atraso? Ignora os amigos no bar, utilizando a desculpa "estive fora, não estou acompanhando, quem é Ralph"?O entomologista Edward Wilson, adepto da sociobiologia, acredita que se colocássemos centenas de bebês numa ilha deserta, sem contato nenhum com a nossa cultura, eles construiriam em 4 mil anos uma civilização com fala, escrita, agricultura, hierarquia, banqueiros, carimbos e monumentos para seus mortos, seguiriam uma ou várias religiões, acreditariam em deuses ou num só. Muitos defendem que acreditar em Deus faz parte do processo evolutivo.Estive na Espanha nessas férias e acompanhei admirado a polêmica em torno da existência d?Ele. "Deus não existe, desfrute a vida" estampavam banners em ônibus municipais. A ideia foi da Associação de Ateus, que pagou o anúncio do próprio bolso.O debate girou em torno do papel do Estado, já que a frase foi estampada num bem de serviço público. As prefeituras de Madri e Barcelona defenderam o direito de livre expressão.A ideia foi copiada de um grupo de ateus de Londres, que fez o mesmo anúncio nos ônibus locais: "God doesn?t exist."Imaginei a contenda que a iniciativa geraria na cidade de São Paulo, onde um candidato a prefeito, Fernando Henrique Cardoso, perdeu a eleição, pois não respondeu, monossilabicamente à pergunta do provocativo jornalista Boris Casoy, se acreditava em Deus.Basta ver o que ocorre no TJ do Rio de Janeiro. O novo presidente, desembargador Luiz Zveiter, foi censurado, pois retirou da sala de sessões um crucifixo e defendeu o caráter laico da Justiça, que deve respeitar todas as religiões.Me lembrei do Estado brasileiro, apesar de laico e democrático, e suas relações duvidosas com o poder evangélico e o rebanho de milhões de eleitores.No mais, a dúvida pode dar em processo - como o movido por fiéis da Igreja Universal contra os jornais O Globo, A Tarde, Extra e Folha de S. Paulo, alegando que se sentiram ofendidos pelo teor das reportagens contra a Igreja.No Brasil, o ateu se sente acuado. Cultos africanos, indígenas ou de outras religiões estão ausentes em cerimônias oficiais, em que deveriam ter um padre, um passe e uma pajelança.Na Espanha, o Estado manteve o firme propósito de não intervir. Venceu a democracia. Perdeu a censura. E grupos evangélicos pagaram anúncios nas mesmas proporções, também exibidos nos ônibus, com os dizeres: "Deus sim existe, viva a vida com Jesus." Não é mais justo? Leia também o blog de Marcelo Rubens Paiva em http://blog.estadao.com.br/blog/marcelorubenspaiva/

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