Dias de Tolstoi

Romance sobre seu último ano de vida e o lançamento de um livro infantil e de uma novela de sua autoria reafirmam o interesse por um dos mestres da ficção russa

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Em 1910, Lev Tolstói (1828-1910) era o escritor mais famoso de toda a Rússia e um dos mais lidos do mundo graças à originalidade e à profundidade de sua obra - Guerra e Paz (1864-1869) trazia um refinamento inédito para um romance histórico, enquanto Anna Karênina (1875-1877) era um retrato realista das relações familiares. O sucesso, no entanto, representava um pesado fardo. Próximo dos 82 anos, Tolstói vivia a angustiante contradição de pregar a doutrina de pobreza e castidade enquanto era obrigado pela mulher, Sofia, a manter uma existência de fausto. "Logo vi, nesse conflito, a base para um romance, especialmente por conta de sua dramaticidade", conta o norte-americano Jay Parini, autor de A Última Estação (Record, tradução de Sônia Coutinho, 416 páginas, R$ 49), em que apresenta uma visão romanceada dos momentos finais do escritor russo.Lev Nikoláevitch Tolstói (cuja grafia varia entre Léon, Leão e Liev Tolstói, ou ainda Leo Tolstoy) nasceu em 1828 e morreu em novembro daquele 1910. A proximidade do centenário de sua morte já aquece o mercado editorial - além do romance de Parini, estão saindo, do próprio Tolstói, o infantil De Quanta Terra Precisa o Homem? (Companhia das Letrinhas), já nas livrarias, e a novela Felicidade Conjugal, que será lançada em setembro, pela Editora 34, com tradução de Boris Schnaiderman. Por outro lado, a obra de Jay Parini foi adaptada para o cinema, com Christopher Plummer no papel de Tolstói e Helen Mirren como Sofia. A estreia deve acontecer na Inglaterra até o final deste ano.Especializado em biografias (já escreveu as de William Faulkner e John Steinbeck), Parini vasculhou os diários de Tolstói e de seus familiares e seguidores para trabalhar no livro que detalha o último ano de vida do escritor russo. "Para mim, era atraente a ideia de escrever um romance que unisse a vida complexa com a importância literária de Tolstói", conta, em entrevista por e-mail. "Encontrei maravilhosas contradições - a prosperidade contra ideais, por exemplo - , que me deixaram intrigado."Em outubro de 1910, Tolstói arquitetou uma fuga dramática, abandonando a mulher e os 13 filhos para viajar de trem em companhia de amigos. Durante alguns dias, o plano revelou-se um sucesso, com o escritor saudado por admiradores a cada estação. Mas a decisão de viajar de terceira classe (esfumaçada e friorenta mas condizente com seu voto de pobreza) agravou a saúde já frágil, obrigando-o a parar definitivamente na estação de Astapova onde, dominado pela pneumonia, sofreu por acreditar que morreria sozinho.Ao contrário: jornalistas acamparam em volta do local à espera de notícias do maior escritor da Rússia, que morreria no dia 20 de novembro. O trem que conduziu seu corpo foi recebido por camponeses e operários que viviam próximos à propriedade dos Tolstói. Seu caixão foi velado e carregado por uma multidão de 3 a 4 mil pessoas, número que teria sido maior se o governo de São Petersburgo não tivesse proibido a vinda de trens especiais de Moscou para o enterro do escritor. Sua fama ultrapassou fronteiras, com os principais jornais do mundo noticiando sua morte.Como se apoiou em diários, Jay Parini construiu seu romance a partir de capítulos que alternam o ponto de vista dos principais personagens que rodearam o escritor, como sua mulher Sofia Andrêievna, o amigo Valentin Bulgákov, a filha Sacha, e o discípulo Vladímir Tchertkov, que não inspirava confiança na família do escritor (leia resenha da obra na página seguinte). "Ele representou, para Tolstói, justamente o polo oposto ao de Sofia", comenta Parini. "Tchertkov substituiu a auto-punição de Tolstói, seu sentimento de horror perante o mundo de pobreza e tristeza. Ele foi parte de Tolstói: a encarnação de um lado de seu personagem, o puritanismo."A tensão do romance, de fato, concentra-se no confronto entre a exagerada Sofia e o dedicado Tchertkov. A partir de relatos alheios, a mulher de Tolstói revela-se uma figura imprevisível, alternando momentos de extremo carinho com ataques coléricos. Não consegue admitir a crescente perda de amor do marido. Também não aceita sua opção por uma vida mais modesta. "Sofia emerge como um personagem patético, propensa a uma histrionice selvagem", afirma Jay Parini. "Ela tentou se afogar - para se ter uma ideia de seu temperamento - depois que o marido a abandonou."O casamento, na verdade, foi um assunto delicado para o escritor, e tratado por ele em vários momentos de sua obra - como já denuncia o título Felicidade Conjugal (leia também na página seguinte a crítica desta novela). Igualmente, Sonata a Kreutzer é uma amarga e inteligente análise da instituição matrimonial. Ao detalhar as convenções que regem o contrato entre os sexos, o romancista russo termina por condenar a hipocrisia e o utilitarismo em que se fundam as relações humanas. O homem, confessando o assassinato da esposa, está em estado de agudo sofrimento, mas está, do mesmo modo, completamente lúcido. O que a novela propõe é o abandono do amor sexual.Parini descreve com detalhes o esfriamento da relação entre Tolstói e Sofia. Em um dos momentos mais dramáticos, a mulher aproveita a presença de amigos para fazê-lo se sentir humilhado ao ler trechos do diário em que o escritor confessa seu interesse por homens.Tolstói, porém, não desponta apenas como um homem fraco. Ao se deixar guiar pelo exemplo da vida simples dos camponeses, a qual considerou ideal, o escritor submeteu-se ao que chamou de "conversão", na qual não aceitava a autoridade de qualquer governo organizado ou igreja. Criticou também o direito à propriedade privada, além de pregar o conceito de não-violência. Com isso, conquistou a admiração do pacifista indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), a quem chegou a escrever uma carta.A contradição humana, portanto, é o ponto alto do relato de Jay Parini, que descreve um homem amado por uma legião de leitores, cercado por familiares e amigos mas que, na verdade, vivia incrivelmente só.

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