Diamante e esmeraldas para Nana

Sem Poupar Coração tem composições dos irmãos e da sobrinha Alice Caymmi

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

11 Março 2009 | 00h00

A conhecida união da família Caymmi, que se intensificou ainda mais com a piora no quadro de saúde de Dorival e Stella em 2008 - para ficar perto dos pais, Dori veio de Los Angeles, onde mora há muitos anos, Danilo mudou-se da Barra da Tijuca para Copacabana, Nana ia vê-los todos os dias, os netos se revezavam nas visitas -, se manifesta no CD novo de Nana também na presença de Alice Caymmi, de 18 anos, entre os compositores. Filha de Danilo, a cantora e compositora iniciante, que participou do programa Som Brasil em homenagem ao avô em dezembro, com o pai e os tios, estreia com Diamante Rubi. Também inédita é a música-título, assinada por Dori e o parceiro Paulo César Pinheiro. Dori entrou com outra, já gravada por Joyce: Fora de Hora, sua com Chico Buarque. Visão é de Danilo e Malu Lafer. Nana incluiu também, entre outras, canções de Fátima Guedes (Pra Quem Ama Demais), Sueli Costa (Violão, com Paulo César Pinheiro), João Donato e Ronaldo Bastos (Caju em Flor), Cristóvão Bastos e Aldir Blanc (Contradições), esta já gravada por Altemar Dutra Jr. Todos são autores já presentes em seus discos. De Rosa Passos e Fernando Oliveira, entrou Esmeraldas, do repertório de Rosa; de Guinga e Paulo César Pinheiro, Senhorinha, que já tem registro de Mônica Salmaso. A última faixa é Não se Esqueça de Mim, que tem emprestado emoção às cenas de Maya e Bahuan na novela de Glória Perez. "Essa música é uma porrada. Ontem mesmo ouvi na novela e quase me rasgo vendo ela (Maya) sofrendo. Quem não passou por uma situação dessa na vida?", disse Nana na sexta-feira passada, quando recebeu a reportagem do Estado em seu apartamento, no Leblon. "Gravamos como há 11 anos e, de novo, ficou maravilhoso. Talvez a interpretação dela esteja ainda um pouco melhor hoje", conta José Milton, produtor da cantora há 12 discos. "O CD animou Nana. Ela teria que sair de casa, ir à luta." O CD sairá pela Som Livre. As gravações, que contaram com músicos que já trabalham com ela há anos, foram concluídas pouco antes do carnaval. Danilo ficou feliz de ver a irmã reagindo. "Eu estava um pouco preocupado com a Nana, fiquei com medo. Nem sei se ela sabe, mas até liguei para alguns amigos." Ele próprio usou o trabalho como ferramenta contra a tristeza: entrou em estúdio logo, em novembro, para gravar um CD e um DVD com músicas suas e várias participações (Fafá de Belém, Zé Renato, Claudio Nucci, Alice Caymmi, Roberto Menescal) que será lançado pela Rob Digital, em parceria com o Canal Brasil, no fim de abril. "Cada um tem o seu luto de uma maneira. Eu procurei partir logo para a ação. A gente tem responsabilidades maiores do que os nossos sentimentos", acredita. "Busquei um nível de concentração elevado. Eram 12 horas por dia de trabalho por dia, só parava para fazer xixi." Dori, que também está desenvolvendo novo trabalho, nos EUA, participou do CD e DVD de Danilo. Prova de que esses três não se largam mesmo. "Agora veio a retomada da alegria. Meu pai sempre foi alegre, não vivia de lembranças. Quando um amigo morria, não deixava suas atividades", recorda-se Danilo. Alternando momentos de bom humor e melancolia, Nana parece ter mais dificuldade de digerir as perdas - o mesmo aconteceu quando da morte de Tom Jobim, grande amigo da família, em 1994. "Eu fui voltar à (churrascaria) Plataforma, onde a gente se encontrava, quase sete anos depois. Eu sou muito emotiva, não sou uma pessoa normal. Tanto que, quando eu canto, é uma desgraça. O maior elogio que me dão é esse: ?Eu chorei seu show todo.? Eu faço você exorcizar, é um dom meu." Associado ao seu jeito de cantar, "botando o coração e as tripas", o dom encantou o diretor suíço Georges Gachot, que está gravando um documentário sobre Nana. Já entrevistou seus irmãos, Erasmo Carlos, Cristóvão Bastos e outros amigos. Gachot dirigiu Música É Perfume (2005), sobre Maria Bethânia. "Achei bonito essa paixão pela minha maneira de cantar", diverte-se Nana, que não se importa de volta e meia ser confundida com uma "cantora revelação". "Eu sempre serei uma revelação. São gerações que vêm, gente sensível, que gosta de música. Eu sou uma pessoa que gera isso." ACERVO Nana, Dori e Danilo ainda não decidiram o que será feito do acervo de objetos guardados pelo pai - quadros pintados por ele, livros, violões, comendas que recebeu. Poderiam ficar no Rio, onde viveu por 70 anos, ou na sua Bahia natal. Os filhos preferem tomar as decisões vagarosamente, conforme tentam se habituar à ausência do pai e da mãe. Nana, que apesar da dedicação aos dois nos últimos anos, conseguiu lançar quatro CDs (três com o repertório do pai, entre eles a homenagem a seus 90 anos, Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo, além de Falando de Amor, com músicas de Tom), continua frequentando o apartamento de Copacabana do qual eles não conseguiram desfrutar (o casal trocou de apartamento depois de 40 anos para que Caymmi, debilitado, tivesse uma varandão fechado para tomar sol). "As coisinhas deles estão como se os dois estivessem ali. Para uns, pode parecer morbidez, mas a casa está intacta, com as roupas penduradas. Ainda não tive coragem de mexer." Para o futuro, ela pretende voltar ao repertório do pai - quer deixar "quase toda" a obra registrada com sua voz. Enquanto ainda mescla os tempos verbais para falar dele, permite-se sentir a dor da ausência. Nana nem sabe como conseguiu gravar seu disco sem "sair de lenço na mão". "Estava muito fragilizada. Se cantasse ?parabéns pra você?, chorava." Frases "Até o último minuto, achei que ia suspender tudo. Primeiro estão meus sentimentos." "Cantar me dá uma saudade incrível dos meus pais" "As coisinhas deles estão como se os dois estivessem ali. A casa está intacta, não tive ainda coragem de mexer." "Uma forma de a gente se consolar é trabalhando." "Eu sou muito emotiva, não sou uma pessoa normal. Tanto que, quando eu canto, é uma desgraça." "Estava muito fragilizada. Se cantasse ?Parabéns pra você?, chorava." "Eu sempre serei uma revelação. São gerações que vêm, gente sensível que gosta de música. Eu sou uma pessoa que causa isso"

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