Dez filmes para entender o mestre

Em 1952, com Mônica e o Desejo, ele já se mostra senhor de dramaturgia sólida, amparada no teatro

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2031 | 00h00

Não deixa de ser um desafio fazer uma seleção de dez filmes em obra tão extensa e cheia de picos de qualidade como a de Ingmar Bergman. Se algumas escolhas devem convergir entre os apreciadores do cineasta, outras ficam por conta da subjetividade de quem prepara uma lista.Bergman ainda vai dar muito o que falar (e escrever) aos críticos, especialistas e cinéfilos. Há muito sabemos da dimensão de sua obra e da sua importância como um dos grandes mestres do cinema, em toda a sua história. Porém, sempre é preciso que uma carreira tenha realmente fim com o ponto final assinalado pelo desaparecimento físico para que os balanços ganhem concretude.Mesmo porque Bergman era pródigo em reaparecimentos. Em 1982 anunciou a despedida do cinema com Fanny e Alexander. Mas continuou a escrever roteiros que foram filmados. E, em 2003, ele próprio dirigiu Saraband, que passa a ser seu testamento. O momento é de rever Bergman. Reavaliar e revalorizar Bergman, um antídoto em momento tão medíocre do cinema.MÔNICA E O DESEJO (1952)Uma síntese entre a sensualidade lírica e a fotografia maravilhosa de Gunnar Fischer. Com o filme, tido como obra simples na filmografia do sueco, começa o seu trabalho com a atriz Harriet Andersson. É um divisor de águas, marcando o início do Bergman tal como o conhecemos, denso, senhor de uma dramaturgia sólida, amparada na experiência do teatro, de Strindberg, sobretudo, mas consciente da linguagem do cinema. Aqui é a história do jovem Harry (Lars Ekborg) que cai de amores pela superficial e sensualíssima Mônica (Harriet).O SÉTIMO SELO (1956)Bergman ambienta uma história no século 14 para obviamente falar do temor nuclear do após-guerra. O mundo visto pelo cavaleiro interpretado por Max von Sydow é uma terra devastada pela peste, pela intolerância religiosa. Um mundo obscuro, no qual a luz vem apenas de uma humilde família de saltimbancos, como a dizer que a redenção (se alguma é possível) só virá através da arte. Mas a morte é o limite implacável e ela joga seu xadrez com o cavaleiro, que luta numa partida perdida de antemão. Política e metafísica, aqui, comparecem e interagem.MORANGOS SILVESTRES (1957)É o que se poderia chamar de um road movie existencial, com o frio dr. Isak Borg (Victor Sjõstrõm) percorrendo o país, em companhia da cunhada (Ingrid Thulin) para receber uma honraria por sua carreira médica. Está velho e é um poço de amargura, mas a viagem é também um reencontro com seu passado e consigo mesmo. Bergman mescla os planos da realidade, da fantasia e do sonho para explorar essa reconstrução da vida do velho médico.O SILÊNCIO (1962)O filme faz parte de uma trilogia, também integrada por Luz de Inverno e Através do Espelho. Ingrid Thulin interpreta Ester, uma tradutora que viaja de volta à Suécia em companhia da irmã (Gunnel Lindblom). As rivalidades sexuais entre irmãs, a presença da morte (Ester sofre de uma doença terminal), a busca da redenção, o questionamento da fé, colocam este filme em nível de densidade ímpar.PERSONA (1966)Naquele que é, talvez, seu filme mais ''''psicanalítico'''', Bergman encena essa relação entre duas mulheres (Bibi Andersson e Liv Ullmann) que se identificam a ponto de se confundirem uma com a outra. Alma (Bibi) é a enfermeira que cuida de uma atriz, Elisabet Vogler (Liv), que perdeu a voz em razão de algum tipo de trauma. O trabalho de câmera e fotografia de Sven Nykvist é talvez o mais radical entre todos os que fez com Bergman. A relação fusional das duas mulheres se expressa na imagem.GRITOS E SUSSURROS (1973)Na origem deste que talvez seja seu filme mais profundo, está um sonho. Bergman diz que sonhou com uma imagem enigmática - quatro mulheres vestidas de branco estão num aposento com papel de parede vermelho. Ele quis decifrar a imagem e não pôde. Quis esquecê-la e não conseguiu. Resolveu filmar para livrar-se dela. E então a compreendeu: eram três mulheres esperando a morte de uma quarta. O branco da morte e da inocência. O vermelho uterino, porque vida e morte se interligam. Nunca o cinema tocou de tão perto o enigma da finitude.CENAS DE UM CASAMENTO (1974)A longa história do relacionamento entre Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann), tido primeiro como casal perfeito, até que as fissuras se apresentam e vem o rompimento. Produzido para a TV sueca, é um dos mais intensos trabalhos jamais feitos pelo cinema sobre o casal moderno. Pode-se dizer que é uma das suas obras mais influentes, com repercussões nos trabalhos de cineastas como Woody Allen e Domingos Oliveira, por exemplo.SONATA DE OUTONO (1978)Aqui a questão é o relacionamento entre mãe (Ingrid Bergman) e filha (Liv Ullmann). Ingrid é a pianista de sucesso que nunca teve tempo para a família. O filme é um longo e intenso acerto de contas entre duas gerações. A cena a reter é aquela em que Ingrid interpreta uma peça ao piano, para frustração de Liv, cujo rosto expressa a consciência de que nunca poderá chegar àquela altura. A expressão da beleza musical é, naquele momento, testemunha também de sua humilhação diante da mãe, uma ambigüidade que fazia parte do universo de Ingmar Bergman.FANNY E ALEXANDER (1982)Filme de vocação autobiográfica, anunciado, à época, como a despedida do cinema (não seria assim). Os personagens são órfãos de pai e a mãe torna a se casar, desta vez com um religioso rígido. Estão aqui colocadas as questões da família, do amadurecimento e da transgressão que significa o crescimento em ambiente hostil. É um filme de profunda beleza pictórica e expressa um sentido de humor nem sempre presente em outras obras do diretor. Anuncia, também, o seu retorno ao teatro. Quando tudo falha no final, é no palco que aquela família de artistas encontra abrigo. Como se vê, Bergman pode ter vacilado em todas as certezas ao longo da vida. Mas nunca perdeu a fé no caráter redentor da arte. Mesmo que essa redenção seja sempre parcial.SARABAND (2003)Seqüência, 30 anos depois de Cenas de um Casamento, cuja versão integral tem cinco horas de duração. Johan e Marianne continuam divorciados e ele se tornou um milionário, com uma relação de desprezo em relação ao filho. O sopro de vida, nessa relação fechada é a neta, Karin (Julia Dufvenius), violoncelista como o pai. A questão aqui será quebrar o vínculo edipiano entre pai e filha para que esta possa se libertar e viver sua própria vida. E sua própria arte. Neste, que é seu testamento, Bergman mais uma vez examina a dificuldade dos relacionamentos humanos e o impasse fundamental - não se vive sem os outros e nem com os outros. O ser humano é impasse. E, mais uma vez, a arte é o que pode ligá-los de alguma forma, e por alguns momentos, ao sublime. No fundo, é o que o justifica. Um detalhe importante sobre este, que é o último filme de Ingmar Bergman - ele não foi lançado no circuito cinematográfico e saiu diretamente em DVD (aliás, com o maravilhoso extra de uma entrevista com o diretor). Distribuidores e exibidores devem ter entendido que não haveria público para ele.Veja galeria de fotos da obra de Bergman e trechos de filmes no Portal do Estadão.

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