Devorando os índios tupinambás

Em Meu Destino É Ser Onça, Alberto Mussa reconta um mito da tribo brasileira a partir de relatos históricos de Staden e Anchieta

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

O escritor Alberto Mussa gosta de enfrentar desafios literários. Depois de se debruçar sobre a cultura africana (em O Trono da Rainha Jinga) e árabe (O Enigma de Qaf), seu interesse agora é pelo legado indígena do Brasil. Em Meu Destino É Ser Onça (272 páginas, R$ 39), que a Record lança nesta semana, Mussa - um inveterado pesquisador, que se estimula ao escrever sobre o que lhe é diferente - partiu dos relatos de André Thevet, Hans Staden, padre Anchieta e outros para recontar um mito tupinambá.Ao preencher com sua erudição e imaginação as lacunas deixadas pelos antecessores, Mussa provocou uma curiosa união da literatura com o ensaio, em que os mitos indígenas são, ao mesmo tempo, narrados e analisados. Um trabalho fruto de uma imensa pesquisa, como Mussa conta a seguir.Os mitos parecem ter papel fundamental no seu trabalho. Qual a importância, de fato?Acho que o fundamento da minha ficção é a mitologia. Hoje vejo isso mais claramente. Meu interesse pelos mitos gregos, iorubás e astecas (os primeiros que li, porque tinha livros em casa que tratavam disso) vem desde a minha adolescência. O mito, para mim, é a forma literária por excelência: o máximo de conteúdo com o mínimo de expressão. É ao mesmo tempo discurso estético e discurso racional. O estudo da mitologia abre perspectivas diferentes na compreensão do homem, dá acesso a formas alternativas de humanidade.Ao criar "o mito que poderia ter sido", em Meu Destino É Ser Onça, você teve também a intenção de discutir o poder da narrativa?Creio que sim. Particularmente discutir a noção de autoria. Nenhum texto, nenhum livro é original: é sempre uma reorganização de textos ou informações anteriores, que às vezes o autor nem se dá conta de que leu ou obteve. O meu original teórico é isso; e ainda tem a pretensão de ter sido criado antes dos textos em que se baseia.É curioso que seu interesse pela cultura da África tenha vindo antes que pela cultura indígena, contrariando a linha temporal da história da nossa imigração. Qual relação você vê entre uma e outra?Eu devo talvez a parte mais fundamental da minha sensibilidade às experiências concretas que tive, desde muito jovem, com a chamada cultura afro-brasileira: escolas de samba, capoeira, umbanda e candomblé, o paladar baiano, o ambiente dos botecos do Rio. Meu interesse pela mitologia indígena é bem posterior, teve uma origem totalmente intelectual. Comecei a ler os mitos tupis na época em que pensei em me doutorar em linguística, com uma tese sobre as línguas tupis-guaranis. Mas não vejo semelhanças importantes entre essas civilizações, senão naquilo em que se assemelham a todas as culturas humanas. E é nessa diversidade que está a grande riqueza.Enquanto os relatos europeus da época apresentavam atrocidades dos tupinambás, que simplesmente devoravam os adversários em lautos banquetes, é possível sair em defesa dos primeiros habitantes da terra brasileira?Creio que basta ver essa questão por outro ângulo: em nenhum momento os europeus demonstram sentir repugnância por si próprios (no mesmo grau em que sentiam em relação aos índios), embora tenham realizado autênticos sacrifícios humanos queimando "hereges" na fogueira, ou dizimando povos para conquistar territórios, ou submetendo um continente inteiro aos horrores inomináveis da escravidão. Os tupinambás tinham um complexo sistema metafísico que justificava a vingança e o canibalismo. Se isso nos repugna, é porque nossa sensibilidade é etnocêntrica. Nenhum grupo humano tem autoridade para se intitular eticamente superior a outros. Essa opinião, claro, também é etnocêntrica.Para muitos, o maior desafio de um escritor é a formação de um público próprio e fiel. Qual o tipo de leitor você acredita que vem te acompanhando?Essa é a pergunta mais difícil de responder e, ao mesmo tempo, da qual eu mais queria saber a resposta. Gostaria de conhecer meus leitores pessoalmente, mas é impossível. Resta, assim, imaginá-los: devem ser pessoas bem-humoradas, que acreditam que reflexão e divertimento podem caminhar juntos, que não sejam obcecadas pela contemporaneidade e que acham que as civilizações do passado são tão dignas de atenção quanto às de hoje.Por que a opção de sempre se apoiar no passado como fonte de ideias e não em questões atuais?Não tenho nada contra o mundo atual. Até porque vivo nele e acho que aproveito minha vida muito bem. Como leitor, não faço distinções: leio clássicos e contemporâneos. Mas, para escrever, preciso de um estímulo intelectual, puramente abstrato, puramente literário. É mesmo uma questão de personalidade. Gosto de explorar, recriando, reinterpretando, os mitos que a história nos oferece.Os índios assimilaram a cultura dos conquistadores. Houve um sentido inverso de influência?Os brasileiros são precisamente índios que assimilaram, uns mais outros menos, aspectos da cultura dos conquistadores. E são simultaneamente descendentes de conquistadores e colonizadores (para incluir os africanos) que criaram uma nova ordem cultural em função desses contatos recíprocos. Não é, essa opinião, uma nova maneira de falar da teoria das três raças. O que eu quero dizer é que nós somos a história que herdamos. E ela, no nosso caso, pressupõe o contato de inúmeras culturas.O que restará para a antropologia, quando esses povos forem assimilados pela tendência atual a uma "monocultura"?Eu realmente preferia não pensar nessa desgraça. A monotonia cultural tornará as pessoas cada vez mais ignorantes de si mesmas, mais sem graça, menos literárias. Hoje se pensa muito em preservar a diversidade biológica do planeta. Devemos pensar assim também em relação aos seres humanos, que fazem parte da natureza. Aliás, nesse contexto da "globalização", não há disciplina mais importante do que antropologia, ou do que a história, para nos revelar que há formas alternativas de beleza e de percepção do mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.