Deus e o diabo no Pantanal

Globo volta ao universo rural de Benedito Ruy Barbosa com o remake de Paraíso, de 1982

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

03 de março de 2009 | 00h00

O canto do tuiuiu volta a ser ouvido na TV a partir do dia 16, quando a Globo estreia Paraíso, novela das 6 de Benedito Ruy Barbosa. Depois de uma tentativa frustrada de rejuvenescer o horário - com Negócio da China -, a emissora volta a apostar no modelo "remake rural", consagrado por novelas como Cabocla (2004) e Sinhá Moça (2006), ambas refilmagens de novelas de Ruy Barbosa, adaptadas para os tempos atuais por suas filhas Edimara e Edilene, com supervisão dele.A adaptação de Paraíso, entretanto, traz um ingrediente saboroso. A novela original, de 1982, era ambientada no interior de São Paulo. A nova versão toma como cenário uma cidade de Mato Grosso. É o mesmo Pantanal, da lendária e belíssima novela que o autor escreveu em 1990 para a TV Manchete e que, à sua revelia, foi reprisada pelo SBT nos últimos meses, alcançando ibope surpreendente - média de 10 pontos.Em entrevista ao Estado, Ruy Barbosa e Edmara negam que a decisão de refilmar Paraíso tenha a ver com o sucesso de Pantanal no SBT - o projeto do remake, dizem, estava pronto há dois anos. "Tivemos que mudar a cidade onde se passa a novela porque, hoje em dia, no Brasil quase não existe - eu disse quase, veja bem - comitiva de bois. Para achar uma comitiva em que o cara toque berrante, você tem que fazer uma viagem longa", explica o autor.Ruy Barbosa recebeu o Estado em seu apartamento em São Paulo. Numa conversa de mais de três horas, contou uns 20 "causos", cantou modinhas de viola e até tocou berrante. No meio disso, falou sobre o ofício de escrever novela, profissão que exerce há mais de 40 anos.Foi sua a ideia de refilmar Paraíso?Não, foi da Globo mesmo. Cabocla deu muito certo, depois, Sinhá Moça também. Então, estão achando que essa vai dar muito certo também, porque é o mesmo universo. Eles já tinham desistido da refilmagem. Mas cada vez que a gente pensava em Paraíso e via o que estava no ar, sabe... Tem muita gente esperando o remake dela.Mas a mudança da história do interior de São Paulo para Mato Grosso tem a ver com a reprise de Pantanal no SBT?Não. É que hoje em dia no Brasil quase não existe - veja, estou dizendo quase - comitiva de bois. Peão é uma profissão que existe em Barretos, onde os caras vão montar boi bravo. Para achar uma comitiva em que o cara toque berrante, você tem que fazer uma viagem longa. No Pantanal, você encontra isso adoidado. As comitivas levam 5 mil bois, é um negócio lindo de morrer.Não ficou nem um pouco contente com a reprise de Pantanal, que teve tanto sucesso?Não. Eu queria fazer um remake dela, na Globo - eu mesmo escreveria, com gosto. Não posso falar muito sobre isso, por causa do processo que estou movendo contra o SBT. Qual é o recado que o sucesso de refilmagens de novelas como Cabocla e Sinhá Moça passa? Há algum problema com as novas histórias?Olha, esse é o tipo de pergunta que eu respondo e me complico depois... (risos). Está provado que a novela das 6 tem de ser poética, romântica, o amor tem de ser tratado com respeito. Essa coisa de novela que se passa na horizontal, muita bagunça, não funciona.Paraíso é sua, mas a adaptação está nas mãos das suas filhas. Quando você voltará a escrever?A Globo está querendo que eu escreva outra história, mas estou relutante. Porque ninguém na minha família quer mais que eu fique 12 horas no computador - eles acham que vou morrer (ele sofreu um AVC em 2006). E não tenho medo de morrer, mas também não tenho pressa. Verdade que a Globo quer que você faça uma outra novela sobre imigrantes italianos?Não, nunca me impuseram nenhum tema. Eles querem uma outra novela. Não me falta inspiração para uma outra novela sobre italianos, mas até tenho vergonha de escrever outra dessas, viu. Então, estou pensando em outro tipo de narrativa. Ainda tenho muito "causo" para contar.

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