Victor Tronconi/Divulgação
Victor Tronconi/Divulgação

Destaque da jovem geração, o artista Rodrigo Cass inaugura mostra

O paulistano, de 33 anos, exibe recentes obras na exposição 'Até o Concreto' e fala de sua formação religiosa carmelita

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2016 | 05h00

No vídeo Até o Concreto, de Rodrigo Cass, veem-se as mãos do artista recortando um quadrado de papel azul. Projetada sobre um bloco de concreto, a rápida ação nos conduz, em sua sequência, a uma imagem delicada – admiravelmente, é como se o plano acinzentado aos poucos se rompesse e fosse possível vislumbrar de uma abertura inaudita um fragmento do céu. “Vou tirando a cor, fazendo o inverso do que seria o trabalho de pintura”, explica o autor da obra. Interessado no sentido de “abstrahere” (que, em latim, origina a palavra abstração), Rodrigo Cass extrai para chegar à síntese; ou melhor, retira para alcançar a “mínima presença”, diz.

Com o azul, podemos, simbolicamente, pensar em céu, mas, neste trabalho de 2016, o artista repete a mesma ação com papéis de outras oito cores – vermelho, amarelo, verde, marrom, branco, preto, laranja e rosa. “Abstrahere” é, portanto, uma questão que podemos chamar de religiosa, intrínseca à produção artística de Rodrigo Cass, que acaba de inaugurar a exposição Até o Concreto (homônima ao vídeo) no Galpão Fortes Vilaça, na Barra Funda.

Não é necessário saber que o paulistano foi religioso carmelita dos 16 aos 27 anos, tendo pertencido à Ordem do Carmo e vivido em conventos de Itu, Mogi das Cruzes, Barretos, São Paulo e Belo Horizonte, para apreciar suas criações, ricas de significações. O dado, entretanto, contribui para o entendimento de um lado importante da prática de Rodrigo Cass como artista – seus trabalhos derivam de ideais como a transformação (“até O Senhor, até que Ele seja mais amado, mais conhecido, glorificado, e que transforme mais pessoas”, define); a “construção de abstraheres” (“o abstrato é uma parte de um todo e é como se nessa pequena parte estivesse o mistério da vida”); e a libertação. “Tem gente que pode achar uma bobagem falar de Deus no trabalho, mas, como estou falando, então, isso é político”, afirma.

Formado em artes plásticas, filosofia e teologia, Rodrigo Cass, hoje, com 33 anos, abandonou a Ordem do Carmo, de mais de oito séculos, para se dedicar à carreira artística, mas a espiritualidade carmelita, “baseada no silêncio, contemplação, busca interior”, enumera, é parte de sua forma de lidar com o mundo.

Tratando do artista pela linha religiosa, podemos dizer que, em sua mostra, a ideia de ascensão ao divino está, literalmente, representada na peça escultórica Ascese (2016), formada por uma base de concreto que traz o rastro do movimento de escalada e um par de sapatos pretos. A obra, entretanto, pode ser vista também por uma vertente irônica – e o fascinante na produção de Rodrigo Cass é a concomitância da carga densa de suas criações – cada gesto e cada material são extremamente simbólicos –, e o fato de os trabalhos serem tão contemporâneos.

“Não poderia pensar que tenho diálogo com artistas como (Lucio) Fontana, Chris Burden, Rivane (Neuenschwander), Lygia Pape e Lygia Clark”, diz Rodrigo Cass, destaque da jovem geração brasileira com individuais recentes em galerias de Paris e de Carlsrue, na Alemanha.

As relações formais e materiais promovidas pelo paulistano em seus vídeos – muitos deles, ações performáticas solitárias, esculturas e “pinturas” (no caso da exposição no Galpão Fortes Vilaça, uma série de composições feitas com linho e concreto) são precisas e significativas. Ao mesmo tempo, nada de sua prática seria se não fosse o aprendizado primevo, em um convento em Mogi das Cruzes, da pintura de ícones religiosos – arte que, para dizer o mínimo, foi resgatada pelos construtivistas russos.

RODRIGO CASS

Galpão Fortes Vilaça. Rua James Holland, 71, Barra Funda, tel. 3392-3942. 3ª a 6ª, 10h/ 19h; sáb., 10h/18h. Até 15/10.

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