Desrespeito na serra da desordem

Documentário resume 20 anos da história do Brasil sob o triste ponto de vista do índio Carapiru, que teve sua família dizimada

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2008 | 00h00

Passaram-se 15 anos desde que o indianista Sidney Possuelo contou ao diretor Andrea Tonacci a história de Carapiru. No intervalo, o cineasta tentou viabilizar outros projetos. Seu preferido era Agora Nunca Mais, que já tratava do massacre de um marginal na cidade grande e de um pai em busca do filho. Parceira, na arte e na vida, de Tonacci, a montadora Cristina Amaral contribuiu para sua decisão de fazer Serras da Desordem. "Ela dizia que o filme sairia mais barato, mas também tinha muito a ver com um sentimento que me consumia." Assista ao trailer do filme Serras da DesordemTonacci trabalhou muito com a questão indígena nestes quase 40 anos decorridos desde Bang Bang, em 1971. "É muito séria essa questão de desrespeito pelo outro, de maneira geral. E o índio representa o verdadeiro brasileiro, briga pelas coisas dele, não deixa as pessoas dizerem como ele tem de viver." Quando Sidney Possuelo lhe contou a história - e ele conheceu Carapiru -, Tonacci atravessava um momento complicado. "Estava longe da mulher, dos filhos, tinha um menino de 9 anos. Era difícil para mim passar a viver separado, vendo eles só de vez em quando." A história de Carapiru bateu no diretor porque veio a calhar. "Havia ali um sentimento de perda com esperança de reencontro que eu conheci como o que eu próprio estava vivendo. Era um sentimento sobre o qual eu conseguiria falar, porque o que Carapiru vivenciara era o que eu estava sentindo. Claro, ninguém massacrou minha família, as histórias eram diferentes, mas a emoção era a mesma."A história de Agora Nunca Mais também tinha a ver com pai e filho, com separação, mas a de Carapiru se revelou mais adequada. Em 1995, Tonacci já estava escrevendo o roteiro, mas pensava numa ficção. A opção pelo documentário veio depois. A de mesclar preto-e-branco e colorido, digital com 35 mm, também. "O filme tem muitas imagens de TV e eu não queria dividir, dizer que isso é TV e isso é cinema. Nosso olhar está cada vez mais acostumado com essa questão do digital. Até os filmes que a gente vê são transferidos para (ou de) uma captação digital. Usei o 35 mm para obter uma definição que queria que ficasse impressa e o preto-e-branco e a cor para marcar o tempo. Mas não queria a separação tradicional, cor, presente, preto-e-branco, passado. É mais uma maneira de dizer que a situação continua, que não mudou nada."Cristina Amaral é responsável por um bloco de cenas que lança a história de Carapiru no contexto da história do Brasil. "Não foi uma invenção a posteriori. Estava previsto no roteiro. Resumimos ali 20 anos da história de Carapiru e do Brasil. A única imagem anterior é a de Marighella morto no carro, que virou um simbolismo da derrubada da floresta e da queda de um tronco muito grande, como era aquele homem." Em vários momentos, Carapiru se expressa na sua língua, que não é traduzida e, no fim, sua fala ainda é obscurecida pelo ruído do avião - que é um dos raros efeitos de Serras da Desordem, já que foi inserido, ali, digitalmente. "A fala, em si, não é importante. A gente não precisa ouvi-la para entender o sentimento. O mais importante é que aquele estranhamento é o meu. Procurei ser o mais fiel possível à história e à experiência de Carapiru, mas, no limite, o filme não é sobre a aculturação do índio, mas sobre a nossa aculturação num mundo em que os valores vão perdendo sentido."

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