Despachos

No começo, pensava que fossem despachos de quimbanda, trabalhos, enfim, de natureza espiritual com finalidades, pelo aspecto, pouco nobres. Melhor não mexer. Apareciam só de vez em quando lá no bairro. Quase sempre nas esquinas. Sacolinhas plásticas amarradas com nós rudimentares. Desconhecia seu significado, mas boa coisa não devia ser. Certa vez, tentei parar para inspecionar um deles, mas minha mulher não deixou. Achava, desconfio, que poderia atrair azar.Fiquei curioso, confesso. O único amigo meu que entende desse tipo de coisa é gringo, estudioso da cultura brasileira e da religiosidade popular. Voltou para os Estados Unidos, mas ainda o encontro de vez em quando, ou em Washington, ou aqui, quando vem dar palestras. Pensei: preciso perguntar para Carlos o significado daqueles embrulhos dos cruzamentos. Mas acabei esquecendo.Só tornei a pensar no assunto quando passei a levar o pedestrianismo a sério. Sempre andei a pé. Mas de uns dois anos para cá, virou uma obsessão. O trânsito de São Paulo foi um fator, tal como meu peso. Precisava perder uns 15 quilinhos. Descobri, também, que é mais simples e até mesmo mais rápido ir a pé para os lugares. Aprendi a andar melhor de ônibus. Redescobri o metrô. Livrei-me de muitos engarrafamentos.Há um prazer em ultrapassar os automóveis na condição de pedestre. É perverso, reconheço. Chego ao requinte de identificar um veículo parado no trânsito e apostar corrida com o motorista, sem o avisar. Às vezes, ganho. Vejo quem vai chegar primeiro ao próximo semáforo. Qual de nós vai cruzar antes a Rebouças.Caminho também, com certa regularidade, pela Avenida Sumaré. Quando dá, ando acompanhado do professor Antônio Pedro Tota e do meu amigo Marcos Sismotto, conhecido por suas considerações filosóficas; vão do pessimismo schopenhaueriano popular ao cômico autodepreciativo. Na juventude, Marcão ganhou um campeonato de comer x-saladas, cujo principal critério de avaliação era a quantidade. De uns tempos para cá, descobriu o vinho. Pratica uma enologia original, que nos seus momentos mais literários eleva meu espírito às gargalhadas.Devo dizer que sou mais feliz como pedestre. É uma das vantagens de se morar na cidade grande, acredito. Dá para fazer tudo a pé. Combinou, também, com meu ambientalismo tardio. O pedestrianismo não deixa de dar uma pequena contribuição à luta contra o aquecimento global.Mas existem obstáculos. Nem tudo é festa. O cocô dos cachorros é um dos maiores. Sou distraído. Você pode imaginar o resto. Percebo, no entanto, avanços nessa área. Vejo os donos dos cães equipados com sacolinhas de plástico, utilizadas para recolher os detritos dos seus animais.O que só descobri recentemente é que alguns deles dão um nó na sacolinha e colocam o pacote, agora completo, de volta à calçada. Sim, era isso. Acontece cada vez mais, aliás. Por algum motivo, que só Roberto DaMatta seria capaz de explicar, tendem a depositar esses artefatos nos cruzamentos. O da João Moura com a Amália de Noronha é um dos pontos favoritos. Outro dia havia cinco embrulhos desses ali. Cheguei a pensar que algum cachorro famoso tivesse sido atropelado ao tentar atravessar a rotatória e que as sacolinhas eram uma homenagem.De outra forma, não faz sentido, convenhamos. Em termos ambientais, é um desastre. Um embrulho desses vai durar uns 20, 300 anos, talvez muito mais. Vai primeiro entupir o bueiro para depois acumular no rio. Fico imaginando os arqueólogos do futuro, ETs, talvez, de máscaras e óculos protetores, abrindo aquilo com instrumentos de precisão, ensaiando teorias sobre seu significado para a cultura humana no início do século 21. Uma escola de interpretação vai afirmar que a chave da compreensão está nas letras escritas no plástico. Outra vai guiar-se pelo DNA das fezes. Apesar das suas divergências, as duas concordarão que essas oferendas foram ícones fundamentais da nossa sociedade. Pedras de toque espirituais. Se não fossem, dirão, civilização nenhuma deixaria que entupissem seus rios e oceanos.

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