Desejos (ainda) secretos

Em tempo de crise, a SPFW aposta no otimismo brasileiro

Lilian Pacce e Mariana Abreu Sodré, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

A 26ª edição da São Paulo Fashion Week dá largada amanhã com o desfile da FH, marca de Fause Haten que terá a Orquestra de Heliópolis tocando ao vivo. Tendências, top models, flashes e comportamento tomam a Bienal do Parque do Ibirapuera mais uma vez para apresentar as propostas do outono-inverno 2009. O "perfume" da estação é de crise. Mas o tema do evento é Brasileirismos. Então vamos lá com o nosso jeitinho. O vendedor de bolas da praia, frases de placa de caminhão e (muita) Carmen Miranda fazem parte da cenografia que ocupa a Bienal até a próxima sexta-feira. "A proposta é uma síntese ou convergência de aspectos da felicidade do brasileiro. O mundo reconhece o brasileiro pelo seu sorriso, seu abraço, suas maneiras. É importante destacar particularidades no mundo globalizado", diz Paulo Borges, diretor do evento. A cenógrafa Daniela Thomas usou cerca de 4 mil bolas, algumas com o símbolo do smile, para criar a instalação que ocupa o centro do prédio. Já os cenários das salas de desfile ficam mais minimalistas. Alguns estilistas dizem que é para destacar a roupa. Outros revelam contenção de gastos. É a crise? Sim, a crise também está na moda. Mas nem todos aderem. Moda é assim: usa quem quer. O fato é que muitos patrocinadores "caíram" na reta final - e algumas marcas também, como Patricia Viera e Vide Bula. Isabela Capeto, que se associou ao grupo InBrands no ano passado, diz que aprendeu a poupar com os empresários do grupo: "A escolha pela Bienal foi por economia", diz a estilista que costumava fazer seu desfile em outras locações. "Aprendi a fazer planilha de gastos e a aproveitar melhor os materiais", afirma ela.Mas há quem acredite que a crise não é coisa nossa. Para os otimistas, a criatividade vai se sobressair à crise e o que vale é o clichê "moda é sonho". Mas a verdade é que o sonho está longe de acabar. Porém está mais realista. A jovem Amapô e a veterana Huis Clos são algumas das marcas que deixaram o lúdico de lado. Para elas, a mulher do inverno 2009 vem com visual maduro e imponente e deixou o romantismo do verão para trás, lá nas férias. Agora, esta mulher quer usar alfaiataria, roupas mais bem construídas, quase arquitetônicas. Roupas que expressem muito conforto e durabilidade. Com isso a influência do guarda-roupa masculino é grande no inverno feminino. Uma moda muitas vezes mais racional, sem firulas. Por isso, os ombros fortes dos anos 80 aparecem trabalhados de novas maneiras neste final dos anos 00. Trench-coats e smokings se desdobram por todo o vestuário, em detalhes ou como peça em si. O grande criador Yves Saint-Laurent, que morreu em junho do ano passado, inspira vários estilistas, tanto pela sua fase smoking quanto por seu estilo étnico: desde a coleção inspirada no balé russo aos africanismos. A silhueta é mais seca, com ares de anos 40. "São tantas as alternativas que a mulher pode estar dentro de uma tendência, como a das listas, sem ter essa intenção", comenta o estilista Wilson Ranieri. Gisele Bündchen deve causar o frisson de sempre no desfile da Colcci, que encerra o primeiro dia, amanhã. Mas os mais modernos estão ligados na vinda da inglesa Agyness Deyn (leia texto na última página) e da gaúcha Raquel Zimmermann, que hoje é a nº 1 do mundo, segundo o ranking do site models.com. Além da homenagem a Carmen Miranda, o SPFW também abre espaço especial para um desfile com os acessórios-escultura de Christine Yuffon, artista plástica chinesa radicada no Brasil, ícone de elegância que ensinou muitas gerações a ter porte, postura e atitude. Ironia ou não, a escolha dessas duas mulheres de personalidade tão forte (Carmen e Christine) acaba criando uma moral da história para o próximo inverno: em qualquer época, em qualquer lugar, o importante mesmo é ter estilo.

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