Desejo de mudar foi acelerado pela crise

Amir Labaki comenta as mudanças na edição deste ano, que preveem a continuação do festival no segundo semestre

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2009 | 00h00

Desde que criou o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade (a edição de 2009 é a 14ª), Amir Labaki adquiriu, compreensivelmente, a fama de ser o Sr. Documentário. Na mídia impressa e televisiva (Canal Brasil), ele debate o tempo todo a questão do documentário, além de viajar pelo mundo, participando de festivais em que garimpa filmes que exibe no evento que criou. É Tudo Verdade começou em São Paulo, ganhou versão carioca e iniciou itinerância pelo Brasil. O festival ajudou a consolidar a cultura do documentário no País a agora é tempo de mudar."Há tempos eu sonhava com a realização de um festival em dois tempos", comenta Labaki. "Mostrando mais de uma centena de filmes, ao mesmo tempo, recebia sempre a mesma reclamação - não dava, nem com todo o esforço do mundo, para ver todos os filmes." O novo formato do É Tudo Verdade visa a atender a essa demanda. O festival ocorre, a partir de agora, em dois tempos. Em março/abril, as competições nacional e internacional, a retrospectiva (este ano, dedicada a Avi Mograbi) e a Conferência do Documentário. No segundo semestre, todas as demais seções do evento a que o público já está acostumado - Estado das Coisas, Foco Latino, Foco Brasil, etc.Havia a intenção de mudar, mas Labaki admite ter sido atropelado pela crise. "Desde que anunciei a realização do festival em duas etapas, o dinheiro encolheu", ele revela. No ano passado, o festival foi orçado em R$ 1,8 milhão. Ele contava com R$ 1,5 milhão, mas desde que anunciou o festival em dois tempos, patrocinadores e apoiadores retraíram-se, preferindo esperar pelo segundo semestre (e o alívio da crise financeira que atinge todo mundo). Hoje, Labaki conta com R$ 1 milhão (e nem todo o dinheiro está em caixa).A mudança de formato é importante e a questão do patrocínio essencial num evento que não cobra ingresso. Mas não é isso que faz do 14º É Tudo Verdade a edição, por assim dizer, da transição. "Desde 2002 e até o ano passado, tivemos um número muito grande de documentários voltados à discussão política do pós-terrorismo. O ex-presidente George W. Bush era demonizado como grande vilão da cena internacional." Isso está mudando no alvorecer da era Barack Obama. "O combate ao terrorismo não é mais o tema dominante", anuncia Amir Labaki. Há uma diversidade muito grande de formas e conteúdos, seja na produção nacional, seja na internacional. "A crise financeira ainda não foi incorporada ao documentário. Talvez seja no ano que vem", ele avalia.A própria escolha dos filmes que abrem o 14º É Tudo Verdade, em São Paulo e no Rio, aponta nessa direção. Os convidados paulistas vão ver hoje à noite Cartas ao Presidente, que integrou a programação do recente Festival de Berlim. O diretor checo Petr Lom teve acesso exclusivo e único a um material raro - as cartas que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad incentiva a população a lhe escrever e que ele, ou uma equipe em seu nome, responde. Lom também ganhou permissão especial para acompanhar o presidente. O resultado disso é um documentário crítico sobre o populismo de Ahmadinejad e o apoio que ele recebe do Irã rural e religioso.No Rio, os cariocas veem amanhã (e os paulistas, na segunda) o documentário que a atriz Maria Ribeiro, estreando na direção, dedica ao cineasta e dramaturgo Domingos Oliveira. Domingos passa a ser referência importante na avaliação do diretor. Além de seu método de trabalho, o filme dá voz ao próprio cineasta para que exponha sua visão dionisíaca de mundo.

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