Descrição minuciosa Na Chegada ao Arraial

Eis Euclides enfim no território tão ansiado e tantas vezes prefigurado. Um primeiro olhar, a partir da aproximação em lombo de montaria, dedica-se a aquilatar a topografia do arraial. A descrição é tão minuciosa e analítica que ainda persiste como a melhor que Canudos viria a ter. Desdobra-se a perder de vista, antes de mais nada, a monotonia do tecido urbano. Num labirinto sem projeto, o casario de pau a pique e o solo partilham a mesma cor, a do barro do chão. Afora poucas casas de telha, morada dos mais abastados, o restante constituía um aglomerado de construções feitas às pressas, sem arruamento. Euclides, ao deparar-se com algo inusitado, registra o choque das primeiras impressões. E certamente por indução da propaganda, afirma erroneamente que os casebres são militarmente dispostos em xadrez, visando ao fogo cruzado dos tiros.O mais impressionante é que não se divisa vivalma. Para acentuar a fantasmagoria, só as intermitências da fuzilaria mostram que há gente lá dentro.Ao vistoriar a pé a parte do arraial já ocupada pelo exército, Euclides examina algumas trincheiras e fala de uma cova em que um canudense sozinho manteve o exército em cheque por horas seguidas, antes de escapar incólume. Ao contarem os cartuchos que ele utilizou, chegou-se ao espantoso número de 361.Uma palavra sobre a datação: "10 de setembro" é erro do jornal, porque seria impossível publicar a matéria já no dia seguinte. Essa data levantou discussões e disputas através dos tempos. Euclides, conforme anotou em sua caderneta de campo, chegou a Canudos a 16 de setembro, e é provável que tenha escrito esta reportagem no mesmo dia, acampado à vista do arraial. Por não declarar neste texto em que dia apeou em Canudos, abriu a porta para toda sorte de conjecturas, e a demora de várias décadas até a publicação da caderneta só as alimentou.Esta primeira correspondência não trata, portanto, de nenhuma batalha, que o repórter ainda não presenciou. Isso caberá às próximas correspondências enviadas do palco da guerra.

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