Luca Zennaro/EFE
Luca Zennaro/EFE

Descoberta de cópia de Picasso na Romênia é golpe de publicidade

Escritora Mira Feticu, que pensava ter achado a tela 'Cabeça de Arlequim', roubada na Holanda, diz que foi enganada por encenadores belgas

EFE

19 Novembro 2018 | 22h42

Um quadro localizado na Romênia e anunciado pelo Ministério Público do país como Tête d'Arlequin (Cabeça de Arlequim), de Pablo Picasso, tela roubada em 2012 do museu Kunsthal de Roterdã (Holanda), é só uma cópia e fazia parte de um truque publicitário, garantiu na segunda-feira o grupo de teatro Berlim.

Os escritores belgas Yves Degryse e Bart Baele admitiram que estão por trás da ação que fazia parte da peça teatral Cópia Autêntica - que estreou em Antuérpia na semana passada - e que tem o objetivo de chamar a atenção sobre o valor dos originais na arte, explicaram em uma carta que apresentada pela emissora de televisão holandesa NOS.

A face política de Pablo Picasso

"Preparamos uma parte dessa atuação em segredo durante os últimos meses", afirmaram os escritores belgas, que inclusive viajaram em 31 de outubro à Romênia para enterrar a cópia da obra de Picasso como parte de sua peça sobre o falsificador holandês de arte Geert Jan Jansen.

Há duas semanas, os dois enviaram seis cartas anônimas com a localização e instruções para várias pessoas, entre elas a escritora romena Mira Feticu, que se deslocou da Holanda - onde vive oficialmente - até um povoado de Dobruja (Romênia) para desenterrar o quadro e levá-lo à embaixada holandesa em Bucareste.

A representação diplomática holandesa, por sua vez, entregou a obra falsa ao Ministério Público romeno, que emitiu um comunicado neste fim de semana, assegurando ter entre as suas mãos o original do Picasso que tinha sido roubado em Roterdã há seis anos junto com outros quadros de Matisse, Meijer De Haan, Monet, Gauguin e Lucian Freud.

O antigo conservador da Coleção Triton, da qual fazia parte a obra original de Picasso, revelou ontem que não acreditava na autenticidade do quadro encontrado na Romênia.

Picasso, sua mãe e a tela cubista

"Conheço muito bem esse trabalho de Picasso. Tive ele diante de mim por mais tempo que os ladrões e, quando olho as imagens do desenho encontrado, tenho sérias dúvidas sobre a autenticidade. Com base no que vejo, acredito que é uma falsificação. Uma muito boa, por sinal", explicou o especialista à emissora de televisão holandesa NOS.

Em uma investigação em 1994, a polícia encontrou em uma propriedade do falsificador Jansen na França 1.600 cópias de obras de grandes mestres como Picasso, Dalí e Matisse, feitas por ele mesmo, e como afirma o grupo de teatro Berlim, atualmente "ainda há alguns trabalhos seus em museus de todo o mundo que ninguém suspeita" que são meras cópias.

"Que valor tem a verdade? Não é mais interessante poder acreditar às vezes em uma mentira brilhantemente elaborada?", questionaram os escritores belgas.

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