Desajuste e ânsia pela vida

No trabalho da escritora, percebe-se dedicação especial à irracionalidade do comportamento humano

Domício Proença Filho, O Estadao de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 00h00

O que, tradicionalmente, singulariza a obra de um escritor e a faz literariamente representativa é a maneira como recria na linguagem a realidade, para além do particular e do biográfico, deles partindo para a configuração de dimensões universais.Lygia Fagundes Telles é exímia conhecedora desse mister. Domina, como raros, a arte da palavra. Consegue , como convém, mobilizar identificações, por meio de suas criaturas. O traçado dos contos, a propósito, gênero de maior incidência na sua prosa, integra, nessa direção, introspecção psicológica a dimensões específicas de realismo e, em termos de sobrenaturalidade, associa-se ao que se convencionou chamar, no âmbito da literatura, de fantástico. O seu olhar armado funciona como uma lente poderosa, a perscrutar o interior de suas criaturas, tentativas de captação da densidade e de decifrações de mistérios dessa nossa complexa e inextricável existência. Ao fundo, a denúncia da violência e da crueldade. Como no conto Venha Ver o Pôr do Sol. Essa visão aguda e sua escrita criadora centralizam-se em dimensões individuais dilaceradas, a partir de relacionamentos interpessoais. O conflito no confronto. Para a configuração do desencontro, que opõe, por exemplo, dever e prazer. É ver a pungência de Antes do Baile Verde.No entretecer das tramas abriga-se ainda uma temática centrada no desajuste, na irracionalidade do comportamento humano. Destacam-se o conflito entre a ânsia de vida e a mesmice do cotidiano, o tédio e a expectativa da morte, a vingança, a mudança inexorável, a crueldade, a mobilizar gente, com seus problemas, suas depressões, fragilidades, desencantos. Como acontece em As Pérolas, em que atua um triângulo amoroso; em Herbarium, pontuado por considerações sobre a mentira. Acrescentem-se solidão, paixões desvairadas, frustrações, finitude obsessivamente retomados e frequentemente associados a um grão de loucura. O Bem e o Mal são relativizados. Em vários textos, emerge a presença do humor, matizado de sutilezas. A insolubilidade dos conflitos, o isolamento, a loucura e a morte presentificam-se na densidade dos contos de A Noite Escura Mais Eu.Na estruturação da temática, sua construção ficcional mobiliza representantes de vários segmentos sociais, notadamente a pequena burguesia, destacadas a tradicional família decadente , a família de classe média; nem faltam os adolescentes, alimentados de sonhos e implacabilidade, os humildes, as prostitutas e os perdidos na noite e na vida. Com prevalência de figuras femininas.Na estratégia, destaca-se, na escritura da contista, a associação do real observável ao território neblinoso do fantástico. É ler O Noivo, Noturno Amarelo, Caçada e , na direção da mescla entre sonho e realidade, As Formigas. Já na coletânea Invenção e Memória, esfumam-se as fronteiras entre real e imaginação criadora. De permeio, a tragédia das perdas.Acrescentem-se as narrativas denunciadoras de racismo, como no agressivamente irônico A Medalha; centradas na eutanásia, como no sutilíssimoBoa Noite Maria; na virgindade e no homossexualismo, como O Espartilho. Lygia, escritora, testemunha lúcida do seu tempo. A tecedura da narrativa curta lygiana faz-se de um destecer-se, de um desenovelar-se. Destaca-se a construção textual em planos integrados da ação, que alterna com a reflexão. Como tomadas cinematográficas . Um exemplo: Gaby, de A Estrutura da Bolha de Sabão.A escritora trabalha a palavra. Arrisca-se com ela. Sua escritura, por outro lado, nunca é objetivamente espelho.Não se busque nos seus contos, portanto, a verdade de correspondência. Habita-os, marcadamente, uma permanente desconfiança da referencialidade. A vinculação objetiva com o referente, vale assinalar, presentifica-se mais nítida nos seus romances. É ver As Meninas, cujo pano de fundo é a burguesia paulista, a paisagem urbana de São Paulo. É ler As Horas Nuas. Mas nem tudo é sofrência e denúncia do vazio axiológico. Resta, no silêncio do texto dos seus contos, para além da livre imersão no universo sombrio da incerteza e da insegurança, o acalanto de alguma felicidade, iluminada pelo amor. Domício Proença Filho é crítico literário, professor e escritor, integrante da Academia Brasileira de Letras, autor, entre outros, de A Linguagem Literária

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.